Os jornais e as televisão já estão cheios de inquéritos públicos ao onze da selecção nacional para o Mundial do Brasil ou aos 23 convocados que Paulo Bento vai levar na caravela de Pedro Álvares Cabral. Quaresma fará bom balneário? Adrien Silva ou Ruben Amorim? E quem deve ser o terceiro guarda-redes? A Mesa de Mistura tem a resposta sem precisar de cruzar o Atlântico. Sem posição definida no campo, Capicua, 5-30, MGDRV, Dead Combo, Legendary Tigerman, Capitão Fausto, You Can’t Win Charlie Brown, Bruno Pernadas, Gonçalo, Sensible Soccers e a dupla Bison & Squareffekt.
Cumpridos os três primeiros meses de calendário, é justo reconhecer que 2014 está a ser um ano muito mais produtivo que o anterior. O hip-hop actualizou-se com os 5-30 e MGDRV e ganhou em Capicua uma nova figura de impor respeito; Dead Combo e Legendary Tigerman mantiveram-se na trajectória singular; You Can’t Win Charlie Brown e Sensible Soccers confirmaram créditos, os Capitão Fausto gravaram um dos melhores álbuns rock cantados em portugueses dos últimos anos; Bruno Pernadas e Gonçalo surpreenderam. Bison & Squareffekt são o planeta distante desta constelação sem estrelas mas generosa de canções sinceras. E ainda faltam Buraka Som Sistema, Halloween, Mão Morta, Throes + The Shine…e D’Alva.
CAPICUA – SEREIA LOUCA
A rapper do Porto saca um álbum imaculado em que a palavra é o centro gravitacional. Sereia Louca (que também se pode ler “sereia a louca”) avança ao som de uma agenda feminista em que o discurso certeiro de Ana Matos impressiona. Grande álbum de uma grande mulher. Clássico instantâneo do hip-hop português.
Primeiras impressões sobre o álbum
5-30 – 5-30
Há supergrupos e supertrios. Os 5-30 nasceram nos ensaios dos Orelha Negra para o SW e passados alguns meses constituem-se como a grande força renovadora de um hip-hop português muito necessitado de uma actualização de sistema operativo como esta. Onde Capicua é verbo, a banda formada por Fred, Carlão e Regula é som de uma renovação que há muito começou nos EUA sob a égide de Kanye West. Mas atenção às conversas cruzadas entre um Carlão que é meio-Algodão meio-Pacman e a um Regula que representa a desinstitucionalização definitiva dos canais de disseminação de música.
MGDRV – EP
Os 5-30 aumentaram a escala da transformação no hip-hop português a todo o país mas foram Mike El Nite e os MGDRV os primeiros protagonistas dessa mudança. O EP do colectivo descendente dos Macacos do Chinês aos quais se junta Yo Clichés nas rimas e nos vídeos. A dimensão audiovisual é indispensável numa consola alimentada pela cultura bass em que a produção vanguardista de Apache suporta um dos melhores MCs deste país: Skillaz. O EP de estreia é bombástico e promete níveis mais altos para o futuro.
Estreia do EP na Mesa de Mistura
DEAD COMBO – A BUNCH OF MENINOS
De Lusitânia Playboys a Bunch of Meninos, os Dead Combo não perdem a cartola e o guarda-roupa de cangalheiro. Só não investem num subtexto tão evidente como em Lisboa Mulata, por exemplo. Onde o mistério já não existe por questões de longevidade, há agora canções com um corpo mais musculado e um grau de depuração como nunca ouvíramos. Sempre bom como dantes.
Primeiras impressões sobre o álbum
LEGENDARY TIGERMAN – TRUE
O primeiro álbum após o êxito inesperado de Femina, um canto às sereias em que as canções eram pequenas curtas-metragens. Aí Paulo Furtado dividia cada uma cena com uma co-protagonista. Em True, expande o universo sonoro a uma dimensão de banda inaudita na sua trajectória de mais de dez anos. Consequência dessa abertura, passou a ser acompanhado nos concertos pelo baterista Paulo Segadães dos Vicious Five.
CAPITÃO FAUSTO – PESAR O SOL
E ao segundo álbum, os Capitão Fausto viram a luz através de um oráculo psicadélico tão actual face a bandas como os Tame Impala, os Pond ou os Temples como deliciosamente deslumbrado para com a história dos Pink Floyd com Syd Barrett. Um dos melhores discos rock cantados em português dos últimos anos vem de uma banda que construiu reputação em palco e confirmou créditos em estúdio.
Pesar o Sol na Mesa de Mistura
YOU CAN’T WIN CHARLIE BROWN – DIFFRACTION/REFRACTION
Está por confirmar que o segundo álbum seja mais difícil que os outros mas aceitando a tese, os You Can’t Win Charlie Brown superam a prova com uma dezena de canções seguras em que maturam o ideal folk citadino com uma personalidade generosa e que cresce a cada episódio editorial.
BRUNO PERNADAS – HOW CAN WE BE JOYFUL IN A WORLD FULL OF KNOWLEDGE?
A mais recente surpresa a aterrar no leitor da Mesa de Mistura. As melodias clássicas de Van Dyke Parks cortejadas pelo experimentalismo recorrente na editora Thrill Jockey, a nave-mãe que sobrevoa How Can We Be Joyful In A World Full of Knowledge?, sintetizadas na guitarra de formação jazzística de Bruno Pernadas. Um compêndio pop onde se mistura jazz e rock com substracto instrumental inatacável.
GONÇALO – QUIM
Outro guitarrista mas este o minhoto Gonçalo Alvarez dos Long Way To Alaska, respalda-se na relva e imagina uma tarde de amor inocente com a namorada. A toalha está estendida, através dos Wayfarer vê-se a eternidade e no iPod só há pop twee escocesa. Tudo isto interpretado por uma guitarra e a voz do cantor da banda bracarense no single. Mas é na riqueza instrumental que está o ganho.
SENSIBLE SOCCERS – 8
Sem tirar os pés da ruralidade, os Sensible Soccers viajam pelos caminhos do interior com cassetes de rock alemão e compositores como Vangelis ou Jean Michel-Jarre e assinam no álbum de estreia 8 uma viagem fascinante em que a nave descola do solo sem nunca chegar a explodir no ar. Podia ser a banda sonora de séries como O Caminho das Estrelas mas títulos como Dibo – homenagem ao craque que espalhou perfume no Rio Ave nos anos 90 – indicam que o subgénero é o humor. Excelente.
BISON & SQUAREFFEKT – ODYSSEY OF THE MIND
Fascinante odisseia do tarraxo por subgéneros como o r&b digital, o Miami Bass e bandas sonoras como as de Blade Runner assinada por dois “filhos” dos Buraka Som Sistema que se juntam a uma nova fornada de produtores projectados pela Príncipe e contribuem para fortalecer Lisboa enquanto praça obrigatória do circuito de música de dança global. O menos conhecido e o mais explorador disco desta lista. Por direito próprio, o joker do onze.
