Álbuns da Semana 39.14

Caribou

Não é necessário recuar um século para regressar a um tempo em que a música electrónica era um planeta distante encarado com desconfiança pela suposta “verdade” da cultura rockeira. Como se sintetizadores ou computadores não pudessem transmitir as emoções dos seus utilizadores e ganhar vida própria de instrumentos com alma.

A invasão tecnológica do quotidiano diário, o número crescente de produtores de quarto alimentados pelas múltiplas ferramentas disponíveis e a ascenção dos DJs à classe das estrelas rock são fenómenos incontornáveis na cultura pop do Séc. XXI. Esta é a semana em que Daniel Snaith retoma o alter-ego Caribou no belíssimo Our Love mas também aquela em que Xinobi passa a ser o primeiro DJ português “sério” a editar por uma multinacional. Dois casos de reconhecimento só possíveis

CARIBOU – OUR LOVE

Ainda é comum a confusão entre música electrónica e de dança mas nem os Boards of Canada perdem horas a programar para que outros percam calorias mais tarde nem Michael Jackson precisou de máquinas para ter o passo mais admirado do mundo. Our Love não é pioneiro na distinção de conceitos nem sequer na obra de Caribou mas é um álbum em que as duas dimensões estão bem separadas. A do melancólico apaixonado que se confessa numa pista vazia e a do entusiasta do house e techno – faceta aprimorada no brilhante Jialong do alter-ego satélite Daphni, um dos remisturadores do single titular. Há um flirt com Jessy Lanza e o r&b em Second Chance, o violino magnífico de Owen Pallett mas a colecção de prospectos sentimentais é Dan Snaith a fotografar o músico e o apaixonado. Porque Caribou, apesar das extensas digressões mundiais, é a banda de um homem só e Our Love é o retrato sem filtro do músico que é mais ser do que artista. O amor não tem que ser pintado a cor-de-rosa e este romance segue o caminho das folhas de Outono. Ler mais e ouvir

FOXYGEN – …AND STAR POWER

É arriscado entregar um álbum com mais de oitenta minutos (!) de extensão mas não se vislumbra arrogância na história interminável dos Foxygen. Na verdade, And Star Power é o encapsular de vários excessos. Power pop, psicadelismo indulgente, o deboche dos Rolling Stones e os uivos de Alan Vega dos Suicide. A união de facto entre Sam France e Jonathan Rado deve ser desorganizada e o álbum duplo não mente quanto ao desgoverno mas os dois conseguem evitar o modelo “cada um para seu lado” de Speakkerbox/Love Below dos Outkast, por exemplo. Se houver tempo e ginástica mental para viajar no tempo à velocidade da luz, …And Star Power é uma viagem psicotrópica pela maionese. Ouvir

VASHTI BUNYAN – HEARTLEAP

Em 2005, Vashti Bunyan terminou um período de hibernação de trinta e cinco anos em que, nos últimos anos de sono, contagiou o movimento free folk dos Animal Collective, Devendra Banhart, Joanna Newsom e CocoRosie. Quase uma década depois, Heartleap põe fim a uma existência pontual e anuncia o epitáfio. É o produto habitual em Joanna Newsom (com toda o relativismo que a palavra “costume” possa representar para uma carreira tão espaçada) com melodias arrebatadoras, palavras claras e um mundo encantado de sonhos e flores. Vashti Bunyan despede-se mais inocente que uma criança e mais pura que água. A Verdade deve ser algo parecido. Ouvir

JOHNNY MARR – PLAYLAND

The Messenger, do ano passado, era, após anos de partilha do papel principal, o primeiro álbum em nome próprio de Johnny Marr e uma evocação do wall of sound de How Soon Is Now e das linhas de guitarra mais disputadas pela febre revivalista. No fundo, Marr observava fotos da pós-adolescência e recortava a sua parte para poder usar como perfil de conta. Já Playland é uma imagem actual e banalizada do guitarrista inspirador da britpop e da facção indie de guitarras com amnésia dos Smiths e recordações dos Modest Mouse. Canções com pulsão rock mas sem golpe de asa e vulgarizadas por uma escrita comum e sem rasgo. Só se salva o disco-rock Easy Money entre os Blondie e os Franz Ferdinand. O resto é para esquecer. Ouvir

STEVE GUNN – WAY OUT WEATHER

Ainda com os Cantos de Lisboa a badalar na memória, Way Out Weather devolve Steve Gunn aos blues reflexivos. Esta é a história de um virtuoso sensível convertido em escritor de canções meritório. A fronteira entre técnica e verdade pessoal ainda não se esbateu por completo mas a irmandade entre as duas dimensões caminha para o anel. Não tem é a magia de os Cantos de Lisboa mas talvez um dia quando Gunn atingir a canonização de Mike Cooper. Ouvir

ZOLA JESUS – TAIGA

O problema não é Zola Jesus. É a banalização do electro-pop gótico vivido por Florence + The Machine, exponenciado por Lana Del Rey e decalcado por Austra. Nika Roza Danilova move-se da sombra para a luz mas o gremlin interior previne-a do sol. E Taiga fica a meio-caminho entre a solenidade e a corrente telúrica. O passado de Zola Jesus já a ilibara da suspeita mas Taiga não é o lobisomem imaginada em Stridulum II. Talvez seja da banalização da diferença ou da busca pela familiaridade mas a proto-criatura estranha do álbum anterior tem hoje características genéticas reconhecíveis. Invulgares mas comuns a todos os humanos. Ouvir

PEAKING LIGHTS – COSMIC LOGIC

O timbre H&M de Indra Dunis é vulgar mas o domínio synth pop do marido Aaron Coyes é tão convincente que pede uma versão instrumental de Cosmic Logic Um belo pedaço de arpeggios sintetizado como se Kevin Saunderson se dedicasse ao dub digital. Além do lado lunar, a pop também a sua face cósmica. Ouvir

XINOBI – 1975

Ainda ninguém reparou mas é a primeira vez que um DJ (a) sério edita por uma multinacional em Portugal. Sinal dos tempos, da abertura e da familiaridade adquirida pela música electrónica, é também um prémio de militância da Discotexas por ter acreditado no movimento de subculturas quando as editoras e os promotores desconheciam aquilo que acontecia em caves, clubes e outros solos dançantes. Mas isso foi quando o maximal absorveu a energia do punk e transformou as raves em arenas de combate hedonista. O quadro da editora em geral e de um dos seus fundadores em particularmente é completamente diferente e 1975  é dominado pela moderação e não pela explosão. O álbum é um cocktail de infusões moderadas de surf music, deep house, funk e disco que sintetizam o currículo do produtor e o aproximam da organicidade do rock (Bruno Cardoso é guitarrista dos este ano regressados Vicious 5). A horizontalidade domina uma dezena de canções equilibradas e unidas na diferença às quais, porém, falta a dedada impressiva de singles tropicais como Hawai ou das memoráveis festas que um dia não muito distante servirão de ritual nostálgico. Por isso, 1975 talvez tenha chegado demasiado tarde no cartão de cidadão e no percurso artístico de Xinobi. Ouvir

BLACK STROBE – GODFORSAKEN ROADS

Há um Mississipi a separar os Black Strobe do electroclash e os blues brancos e evoluídos de GodForSaken Roads. Arnaud Rebotini corta o bigode à Starsky & Hutch, prolonga a estrada rockeira pavimentada desde Burn Your Own Church e expressa a admiração interminável por Johnny Cash. Não é um álbum de blues, é um ensaio sobre a evolução da história desde o primitivismo do rock até à evolução tecnológica do synth wave, kraut e industrial. “Uma visão europeia da americana” a que o parisiense chama de Spaghetti Americana. Palavras mais bem escolhidas que os sons. Ouvir

TINASHE – AQUARIUS

Tinashe reuniu um batalhão de convidados para a auxiliar na tarefa de dar razão a todos os que nela jogaram cartada forte (e em Jhené Aiko) para futura estrela do r&b. Aquarius não desilude na sua heterogeneidade entre o experimentalismo de Kelela, a veia pop de Banks e as canções mais convencionais de club. Os convites estão destinados também eles a figuras emergentes – os produtores Mike Will Made It e DJ Mustard, os rappers Future, Schoolboy Q e A$ap Rocky e o esteta pop Dev Hynes – mas é a sedução negra de Tinashe, herdeira do gene de Aaliyah a subir a primeiro plano, quer em baladas convencionais ao piano, quer quando se deita sobre lençóis brancos em lingerie. Uma estrela a nascer entre o céu e o mar. Ouvir

NEHRUVIANDOOM – NEHRUVIANDOOM

O mestre DOOM contracena com o aprendiz Bishop Nehru mas a haver uma maioria parlamentar neste bloco central, ela pertence ao primeiro. NehruvianDOOM é mais classicista que progressivo e assente em pilares clássicos dos anos 90 como samples da tradição negra jazz e soul. A ponte geracional surge após Nehru ter rimado sobre um beat de DOOM e a disponibilidade do segundo para respirar o mesmo ar que o primeiro é saudável mas a experiência é mais um rodapé discográfico e um marco de aprendizagem para o novato do que uma receita que possa perdurar no tempo. Ouvir

ONEMAN – SOLITAIRE

Steve Bishop foi um dos guerrilheiros da Rinse FM e agora dedica-se a edits e remisturas acopladas em mixtapes que funcionam como álbuns. O terceiro volume de Solitaire é um cruzamento étnico permanente entre a nova escola do hip-hop e música electrónica de corpo inteiro de tipologia house e techno, elencada por inéditos de Todd Edwards ou Tom Trago, contribuições dos Bicep e híbridos de Ryan Hemsworth e Canblaster. Ouvir

RESO – THE EARLY WORKS

Reso já foi um dos campeões do Hype Machine. Engenheiro de som de Burial de Jamie Woon, aterrou no epicentro dubstep em 2008 influenciando pela bibliografia habitual: Aphex Twin, DJ Shadow e Photek. O estilo de Alex Melia é um livro aberto de dubstep entre Skream e Skrillex, dub digital, beats de hip-hop, IDM, sci-fi e drum’n’bassThe Early Works é uma recolha da obra inicial e uma amostra da variedade de referências mas não necessariamente de uma linha horizontal de consistência. Ouvir

DJ FORD FOSTER – GOLD CANS EP

DJ Ford Foster junta-se ao exigente catálogo Unknown To Unknown de DJ Haus para chegar a um acordo entre ghetto house de lavra Dance Mania e techno marado de efeitos secundários desconhecidos. 1 + 1 = 2 pés a bater. Ouvir

CYBERNETIC SERENDEPITY MUSIC 

Cybernetic Serendipity Music mede-se pelo preço no mercado negro: 150 libras para andar de mão em mão. A história desta compilação de 1968 começa no pioneirismo da relação entre experimentação electrónica e vídeo-arte quando a exposição homónima do disco foi inaugurada nesse ano. A instalação sonora sintetizada no vinil foi berço de uma revolução sintética liderada por John Cage e Xenakis. Alguns compositores como Zinovieff já utilizavam computadores e usavam-nos enquanto instrumento auxiliar performativo. A edição original foi limitadíssima e disponibilizada apenas durante a exposição. A reedição é limitada a 500 cópias mas este pedaço de história está felizmente disponível para escuta. Ouvir

EN – COMMUNICATION 

A dupla Vin Sol e Matrixxman abre a porta do gabinete techno da Soo Wavey ao misterioso debutante En. A fiabilidade de Communication faz supor que seja um alter-ego inspirado pelos pisos inferiores do techno de Detroit. O EP termina com uma remistura caseira dos patrões e tudo acaba como começa e continua: em bem. Ouvir

SECOND STOREY – DUALISTIC 

Inspirado pela mestria de Aphex Twin e Autechre, Alec Storey constrói texturas intricadas dentro de um centro gravitacional IDM segura. Uma fórmula molecular que bebe das melhores fontes e não as polui. Ouvir

DINOS CHAPMAN & CAPITAL CHILDREN CHOIR

Um coro infantil cantar Crystal Castles, Spiritualized e Florence + The Machine seria como ver o Coro de Santo Amaro de Oeiras a reinterpretar Capitão Fausto, Linda Martini ou D´Alva. Difícil de imaginar, não? Supostamente, a pérola deste EP deveria ser a remistura molecular de Dinos Chapman mas é muito mais divertido ouvir Shake It Out com neve a cair e um coro angelical vestido da cor dos flocos. Gracinha. Ouvir

GODFLESH – A WORLD LIT ONLY BY FIRE

A Mesa de Mistura não fecha a porta ao heavy metal e quando se trata do primeiro álbum dos Godflesh em 15 anos, essa disponibilidade passa a ser um convite. Se o rap está preso a um bons beats e melhores versos, no metal um riff pode salvar vidas. Justin Broadick é hábil na construção de uma muralha sonora que perpassa as extremidades e inclui o dub e a electrónica como aliados e não inimigos. Como se os Killing Joke tivessem ouvido a discografia inteira dos Slayer. Regresso inspirado. Ouvir

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