E se de repente os melómanos esclarecidos validassem o eurodance como um género tão credível quanto a IDM? E se a Warp reeditasse uma jóia pop como é The Sign dos Ace of Base? Não vai acontecer mas se o Gin Party Soundsystem mandasse como Obama, Dilma ou Merkel, já haveria cimeiras nesse sentido.
Dos Swans a Haddaway, tudo é possível porque DJs que não dançam não são de confiança e estes tanto saltam de comboios em andamento como defendem o headbangin’ até à raiz do cabelo. Há uma série de requisitos a preencher numa noite de GPSS: bar aberto de gin, #dartudo, cartazes tipo velhinhas do Big Show Sic no público e divertir sem estragar (?!).
Nada parece fazer sentido mas a piada é essa. Nem sequer se trata de non-sense ou gozar com a intelligentsia. O GPSS leva-se de menos a sério para se esforçar em não se levar a sério. Em quantas festas se ouvem Smiths e 2 Unlimited? Hão-de acabar numa adaptação histórica de João Botelho.
Enquanto a condecoração oficial do lorde da noite não chega, estarão esta quarta-feira no Dragão Caixa a festejar o “acordeãocore” com os estudantes portuenses e dia 28 no Musicbox na noite de La Flama Negra.
AMÍLCAR RODRIGUES
A primeira vez que tomei conhecimento da Conspiração da Pólvora foi, como provavelmente tantos outros da minha geração — e das vindouras, suponho —, através do V for Vendetta. Escrito pelos irmãos Wachowski e primeira incursão no exercício da realização a solo de James McTeigue, o filme não é nada de deslumbrante ou sequer um dos consideráveis para aquela listinha mental (ou em .xls) que todos fazemos dos filmes da nossa vida, mas colocaria inevitavelmente o 5 de Novembro como data a lembrar no calendário. Nesse mesmo 2005 já Antony havia lançado I Am a Bird Now, o seu segundo registo, mas aquele com o qual tomei contacto em primeiro lugar. Não foi um amor à primeira audição, é certo, mas as viagens com o CD no auto-rádio do automóvel ajudaram a que a relação se fosse cimentando, mesmo quando amigos meus ao entrar no carro imediatamente exclamavam “caralho, lá estás tu a ouvir músicas da igreja” — sim, sou do norte. V for Vendetta e Antony and the Johnsons cruzam-se em Bird Gerhl. A magnífica canção de encerramento do disco supracitado, é também a canção disparada da jukebox para musicar a dança final do nosso (anti) herói, V, com Evey, interpretada pela belíssima Natalie Portman. Uma ode ao soltar amarras, perder os medos — largando as máscaras idiotas —, e lutar contra um mundo tão Orwelliano/ Kim Jong-uniano. Tão 1605 como futuro distópico. Tão 2014.
ANDRÉ FERNANDES
Your Love é só mais uma das milhares de músicas dos anos 80 que focam a sua temática no amor. Neste caso, Tony Lewis, o vocalista deste power pop trio azeiteiro do Reino Unido, procura um amor de uma noite só. Com a suposta namorada de férias e bem longe, aproveita para se fazer à amiga colorida mais velha que o deixa sem fôlego. Acima de tudo, uma canção que nos mostra que um homem não é de ferro e que se pode divertir sem estragar (a relação).
BERNARDO COSTA
Heater, do produtor e DJ suíço (acho que é suíço) Samim, foi lançada em finais de 2007 e no verão do ano seguinte já inundava todas as beach parties de norte a sul do país. Qual o motivo desta escolha? Talvez porque, pessoalmente, num ano tão germinante em termos do gosto musical, este foi possivelmente o hit de dance music com que mais engracei e que gostei de ouvir em saídas noturnas mais ébrias. Possivelmente também me ajudou a não ser tão preconceituoso com outro géneros musicais que na altura não me identificava com. Era das poucas músicas que tanto eu como a malta mais mundana da minha terra gostava (entretanto já serão bem mais). E se calhar começou aqui o meu “desvio” para esta coisa de ser alternador de discos, por menos sério que tenha começado (e continuado?). Mas a única certeza que tenho pela qual escolhi esta demonstração de acordeãocore no entanto é a
seguinte: é um grande malhão.
CLÁUDIO TORRES
Apesar das coordenadas do eurodance marcarem o percurso das noites de GPSS, a melomania leva-nos muitas vezes por outros caminhos. Esta remistura do Cyril Hahn para uma extraordinária canção da Jessie Ware simboliza o mais genuíno prazer pop, pretexto habitual para a requerida agitação dos corpos nas nossas festas. A missão é simples: procurar a melhor casta de batidas para garantir a mais caótica diversão.
DIOGO SOARES SILVA
Canção oficial do dia seguinte a sets de GPSS, sejam ou não domingos, haja ou não ressaca, desde que estejamos sozinhos no regresso a uma vida miserável em que o eurodance, talvez por não ser assim tão socialmente aceite, deixa de ser a peça central nas nossas vidas. Foi interpretada por toda a gente que interessa, desde Ray Stevens a Willie Nelson, passando por Johnny Cash e Jerry Lee Lewis, mas nada como ouvi-la na voz de quem escreveu. Venha mais um copo para afogar a torrada do pequeno almoço.
FRANCISCO MENDES
É impressionante como o ser humano consegue associar memórias a músicas. Escolhi a Born Slippy.NUXX exactamente por causa disso, não importa onde esteja ou quais sejam as circunstancias, se ouvir a Born Slippy consigo viajar no tempo e ter recordações dos melhores/piores momentos que já passei na vida. Sejam estes noites que descambaram completamente, viagens com desconhecidos patrocinadas pelo BlaBlaCar ou até mesmo o dia em que consegui entrar na faculdade ou o momento em que nos anunciaram como vencedores do LiveAct do Optimus Alive. Enfim, não consigo ouvir a Born Slippy até ao fim sem ficar com uma lágrima ao canto do olho. Mas bem como já escrevi demasiado, então xau :*
JOÃO RUIVO
Esqueçam a introspecção de Sea Change, deixem lá o arrojo de Odelay. A “ozadia” e alegria de Midnight Vultures é where it’s at. Este Malibu Mix (o que quer que isso queira dizer) de Sexx Laws apareceu como b-side da canção original e é tão deliciosamente azeiteiro que não há como lhe resistir. Raios laser com fartura, sintetizadores foleiros, batidas certeiras… enfim à falta de eurodance esta é a next best thing para um festão mínimo garantido.
JOÃO SANTOS
Da Bélgica não brotam apenas grandes hinos do eurodance, também na religião pode ser observável o bom gosto presente no país que contém a capital da União Europeia. Ora repare-se no poder desta religião em particular, a Church of Ra, na forma de nove intensos minutos pelos profetas Amen Ra. Uma escolha a contrastar com as dos demais, até porque em Gin Party Soundsystem é mais natural a prática do headbang do que o chorar ao som do choro de cantautores barbudos.
JOSÉ V. RAPOSO/ALTINO A. SASSINO
A vida é inglória e uma luta constante, recuperando certa dialéctica – de um cubículo maior para um gabinete e depois para um diploma e um caixão que não seja de pinho. Estes Mestres intemporais e insubstituíveis (pun intended) revelam, no melhor existencialismo guitarreiro (sdds Bob Stinson), que o mundo já não está para glórias, que o casamento e a família também são uma fonte de problemas e de conformismo e que acabaremos todos feitos em pó, não valendo a pena adjectivar gerações inteiras. Em suma: não nos acusem de não termos rumo se vocês desgraçaram a vida muito antes de nós e, no fundo, têm é inveja. Doutorados? Se nunca ouviram Replacements nunca aprenderam nada. Relativismo? Não, pragmatismo céptico, quando muito.
GIN PARTY SOUNDSYSTEM
Corria o ano de 1998, Ricky Martin e a sua Copa de La Vida elevavam a fasquia dos hinos oficiais para níveis estratosféricos e muito poucos pensariam na possibilidade de tal nível ser superado. Mas foi. Campione, o hino oficial do Euro 2000, da autoria do sueco E-Type, e uma espécie de one-hit wonder (como em tantos outros participantes no género), marcaria definitivamente o ano, sendo até, e arriscando aqui um pouco perante os nossos fãs, o canto do cisne (quem nos dera estar em casa) do eurodance. Em ocasião tão solene como a visita ao Dragão Caixa, nada mais certo e natural do que escolher uma música apropriada à ocasião.
