Arca: o cúmplice sonoro que todos procuram sobe a primeiro plano

Arca

Que têm em comum Björk, Kanye West e FKA Twigs? A islandesa foi a artista pop dos anos 90 que melhor uniu vanguarda e pop. Kanye West é o fugitivo do pelotão hip-hop aquietado por ideias de renovação não apenas sónicos mas também sociólogos. Retirar o hip-hop dos guetos e incluí-lo na alta elite artística é o móbil de “Yeezy”. E a petiz Tahliah Debrett Barnett tem no LP1 deste verão um símbolo de estranheza familiar, ubíquo em diversos círculos. Se é “novo” ou não é uma outra questão – há quem defenda que se trata de um disco trip-hop com vinte anos de atraso – mas que há uma sofisticação latente no grafismo explícito das canções é manifesto.

A resposta à pergunta dá pelo nome de Arca, o heterónimo de Alejandro Ghersi. O trio de ases da linha da frente da pop convocaram o produtor de quarto descoberto no Soundcloud e quando nomes deste calibre têm uma vontade comum, a generalização é menos perigosa. Todos os anos, há pelo menos um esteta de quem o telefone não pára de tocar. Já foram vários e dos mais heterogéneos quadrantes. De Timbaland aos Neptunes, de Stuart Price a Erol Alkan ou Boys Noize, de Mark Ronson à equipa Xenomania, qualquer um destes criadores definiu uma tendência reconhecida e imitada.

Arca tem esse dom de reflectir um presente confuso, disforme e híbrido adivinhado por Bob Dylan há mais de cinquenta anos em Blowin’ In The Wind. “The answer is blowin’ in the wind”, poetizava o trovador antes de Guy Debord escrever A Sociedade do Espectáculo e de a sociedade da informação invadir o real como se de petróleo ou água se tratasse. E se de facto, a dependência energética é uma das grandes carências mundiais, a alienação informativa é-o também à escala do banco do comboio ou da mesa do Ikea.

O sonoplasta sobe a compositor no inaugural Xen, esta segunda-feira editado pela sempre atenta de Mute, mas a produção auto-subsistente não difere das encomendas. É uma colecção de estilhaços digitais, restos do ciberespaço e trechos perdidos na via láctea que formam camadas sonoras anónimas e elípticas. Esse auto-conhecimento do desconhecido sensível faz do álbum de estreia um exercício dominado pela liberdade de escolhas, demonstrativo da matéria-prima riquíssima que vai na cabeça de Arca.

Talvez seja só uma experiência científica, uma manipulação do software disponível ou bancos de sons não reclamados pelos autores mas Xen representa através de texturas e grafismos a hiperdispersão e abrange-a num quadro maior de vivência do real. Deve ser por isso que os três mosqueteiros da sofisticação o chamaram. E agora, Ghersi tem direito a uma foto de rosto na parede. Ainda que esbatida e indefinida.

Xen é coeso, exala sensualidade e sobrevive além dos castelos herméticos e impenetráveis que costumam ser os discos rigídos dos visionários mas não se esperem canções. Só quadros, cenários, visões e ficções improváveis tornadas reais.

[spotifyplaybutton play=”spotify:album:5FLsmazQWaDK9JGqdzHlN4″]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s