Álbuns da Semana 46.14

Galadrop

Que valor actual tem a edição no registo temporal de uma obra? Cada vez menos agora que a música anda nas nuvens e circula livremente entre os dedos sem nunca chegar realmente a estar na mão.

II, o segundo álbum dos Gala Drop e o primeiro com um vocalista, esteve à venda, por exemplo, nos concertos de apresentação no B.Leza e no Plano B mas, para efeitos globais, só esta semana pôde ser ouvido na íntegra e logo com a chancela da Pitchfork. Causa mas sobretudo consequência de uma agenda internacional lógica para uma obra que apesar da geografia africana, da geometria escandinava e de prazeres insulares baleáricos e jamaicanos, é inimiga de fronteiras.

Da música portuguesa nova ou recente não se pode pedir uma exportação em massa nem para massas mas se esse investimento for localizado em nichos específicos a probabilidade de êxito será maior. Sonhar com jactos privados e limousines é ilusório mas nunca como agora foi possível criar uma boa rede de contactos que permita à música chegar a quem a quer ouvir. Das nuvens para a rua, os casos de Gala Drop e Photonz (agora reduzidos ao emigrante londrino Marco Rodrigues) demonstram que o cartão de cidadão é um complexo antiquado e que as portas do mundo estão abertas a quem estiver disposto a lutar. É preciso é saber escolhê-las.

GALA DROP – II

Na sala de embarque para II, os Gala Drop receberam um reforço de peso. Jerry The Cat, um filho do techno de Detroit, cúmplice de Moodymann e Theo Parrish, que conta no currículo com gravações com os lendários Funkadelic e Parliament, encantando pela luz de Lisboa, que se juntou não só a este colectivo mas também aos parentes próximos Loosers. O afro-americano traz uma claridão à banda que nenhum dos episódios anteriores permitia. Os Gala Drop já assentavam em alguns destes mundos cósmicos mas nunca com a luz resplandecente de IISun Gun, o single, é rock espacial vocalizado como se de uma canção dos Beatles finais se tratasse. Nele, entrecruzam-se o balanço de tempo e espaço do dub, funk cósmico, rock psicadélico e kraut, ecos de Detroit e até um samba digital em Samba da Maconha, festim final que se despede em clima de transe. II é um círculo vicioso de prazeres e climas quentes que tem em Jerry The Cat um vocalista declarado e no álbum um grupo de canções portadoras desse nome sem timidez. Os Gala Drop são um grupo abençoado e iluminado que irradia felicidade. Texto completoOuvir

DIPLO – F10RIDA

Dez anos é muito tempo. Em 2004, Diplo era um petiz produtor a traçar inadvertidamente os beats do futuro. Em F10rida, agora reeditado por ocasião da década de vida, convivem dois mundos. O do herdeiro da escola de DJ Shadow e o do adivinho à procura de recontextualizar as técnicas de corte e costura. Para o seu tempo, é um achado, um planeta distante fora da órbita terrestre que o tempo aproximou. Diplo passou-se para o outro lado com o segundo álbum de Major Lazer e é estimulante ouvi-lo ainda imberbe a tentar sem medo de errar. F10rida não tinha muitas certezas mas as produções mais arrojadas parecem do mês passado e não de há dez anos. O presente pode não ser animador mas este pretérito foi inspirador. Ouvir

POMO – THE OTHER DAY EP

A rede de contactos de Pomo confunde-se com a genealogia sonora. O produtor de Montreal está entre o bass de Kaytranada e o house canção dos Disclosure a esboçar uma estética que, apesar de fresca, vem de longe. Corre-lhe o funk de Prince nas veias e os boogie de Zapp & Roger. Por vezes, as referências esmagam as expectativas mas o EP de estreia pela HW&W de Kaytranada e Ta-Ku vive bem com elas e arranca com a magnífica So Fine. Além dos magníficos teclados, Pomo é um dos produtores mais estimulantes do presente da música de dança. É urgente esperá-lo na zona das chegadas do Aeroporto da Portela. Ouvir

SILK RHODES – SILK RHODES

Soulful, quente, sensual e espiritual. Silk Rhodes é pecado e redenção com um Fender Rhodes a amanteigar o pão. Selo de qualidade da Stone Throw para a dupla formada pela líbido de Sasha Desree e a sensibilidade de Michael Collins. Ouvir

GIRAFFAGE – NO REASON

Giraffage transpõe as remisturas de r&b e a obsessão por vozes negras aveludadas tipo Janet Jackson e Aaliyah para uma mão-cheia de canções autorais formadoras um EP com tudo o que é comum usar agora: além das técnicas já descritas, chops, pitch-down, bass, drops e build-ups. Fruta da época para consumir de imediato antes que amadureça demasiado. Ouvir

STEFFI – POWER OF ANONIMITY

Steffi é autora de um dos melhores singles house dos últimos calendários – Do Me Right – mas em Power of Anonymity só há uma canção com doses parecidas de sacarina: Treasure Seeking onde volta a resgatar Dexter e Virginia. O segundo álbum da produtora confunde-se com o “som do Panorama” onde é residente e é marcadamente europeu com referências recorrentes à nobreza deep house e acid. Ouvir

BARNT – MAGAZINE 13

Ao ser defendida com galhardia, a tradição electrónica alemã está em permanente reconstrução Barnt resgata as técnicas da música Kosmische – caixas de ritmos minimais que servem uma imaginação posta ao serviço dos sintetizadores – para o presente sem perder a identidade retro-futurista e exótica dos compositores nucleares. Ouvir

OSCAR MULERO – SPHERICAL COORDINATES

Ter experiência só é insuficiente. Oscar Mulero converte-a em sabedoria e Spherical Coordinates é o produto de vinte anos a desbravar o techno potenciando o mínimo até ao máximo. A impressão digital do espanhol é reconhecível à queima-roupa. Minimalismo, tempos crescentes, tensão sem explosão e expedições mentais circulares não enganam ninguém. É um mestre. Ouvir

PHOTONZ – OSIRIS RESSURRECTED

Techno planante e orientalizado com leve toque de especiarias com a pimenta do berlinense Palms Trax que devolve Osiris Ressurrected às caves drum’n’bass que há vinte anos fervilhavam de novidade em Londres. Hoje, é nostalgia cara mas continua a saber bem e permite alimentar fantasias além dos vídeos artesanais com timecode da época. Ouvir

WEIGHTLESS VOLUME ONE

A primeira edição do novo selo de Logos e Mumdance tem uma colaboração dos patronos com Rabit, três produções de nomes no mesmo raio de acção grime instrumental e bass music – Inkke, Dark0 e Murlo – e ainda Rabit e Strict Face. EP homogéneo apesar da variedade facial. Ouvir

CERTIFIED CONNECTIONS

As ramificaçãoes do dubstep não terminam na canção com bass de James Blake ou em produtores que extrapolam a neblina característica para os beats de hip-hop. As sombras continuam no mesmo sítio, só estão a ser reconstruídas por novos cientistas com referências entre os lados festivo e escuro da noite. Sem grande alarido, Certified Connection tem passagens brilhantes de Murlo, Parrise e Luke Benjamin. Se fecharem os olhos, a colecção de nomes é reduzida a uma só identidade una e coesa. Ouvir

MARK-E – AVION EP

Seis meses após o álbum Product of Industry, Mark-E dedica-se a elaborar o techno na sua forma mais cósmica com um EP que pela sua duração é mais um mini-álbum. Quatro novas produções cósmicas e um par de remisturas eficientes valem a pena o regresso ao espectro sombrio deste produtor. Ouvir

HUGO BARRITT – PENUMBRA EP

Penumbra é a antítese do título. Um EP dinâmico que percorre quatro círculos da electrónica sem se deter em nenhuma das pistas. House, techno, drum’n’bass e deep regem-se por um fio condutor melodioso e físico. Ouvir

SOUTH LONDON ORDNANCE – OFFCUTS

Uma colecção de sobras arrumadas da South London Ordnance em vésperas de um EP editado em casa. Download sem custos e com qualidade de áudio. Ouvir

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