A pergunta é incontornável: valerá a pena continuar a elencar álbuns quando a tirania do single só deixa a ouvir a parte e não o todo? No ano de 2014 no país de Portugal, a resposta é clara. Sim! Nunca houve tanta boa música em quantidade e público disponível para ouvir e apropriar-se. A chave da questão está no compromisso. O É Português? Não Gosto da Stealing Orchestra foi abolido e a disponibilidade do público é simétrica à vontade de criar.
Três festivais exclusivos de música portuguesa – dois deles com casa cheia (Sol da Caparica e Bons Sons) -, salas lotadas nos grandes centros, a aposta crescente dos programadores, fervor nas redes sociais e sobretudo vontade de pertencer a uma geração que apesar da diversidade, faz da música portuguesa um regime de excepção num país em convalescença de uma grave crise político-financeira e uma das melhores da Europa.
Há bandas a nascer como cogumelos, músicos que todos os dias abrem a porta do quarto e soltam o disco externo para o mundo e um desejo de pertencer num quadro diferente daquele que é pintado sobre os anos 80. Facilidade de criação e abertura na comunicação são ferramentas essenciais para chegar a um mosaico heterogéneo e formado por múltiplos nichos, reflexivos da cultura fragmentada do Séc. XXI.
O título de álbum favorito do ano já fora entregue a Capicua. É chegada a hora de conhecer a lista completa dos vinte magníficos. Um ano para reter na memória.
5-30 – 5-30
O supergrupo que veio mudar as regras do jogo do hip-hop português. Fred, Regula, Carlão e o joker Sam The Kid trouxeram a actualidade que faltava, quer lírica, quer sónica. Três vértices unidos num triângulo conspirativo que junta a aprendizagem musical do primeiro, a linguagem de rua do segundo e a poética visual do terceiro. Chegou à Hora retirou do baú os espíritos dos Da Weasel mas foi Regula quem espantou o circuito institucional ao dar a conhecer o impacto junto de gerações nascentes. Fred agregou as duas visões.
ANTÓNIO ZAMBUJO – RUA DA EMENDA
Já não se fazem homens como António Zambujo. Quinto sintetizou mais de uma dezena de anos a cantar em casas de fados e outros palcos recatados. A lambreta ganhou embalo e não perde velocidade em Rua da Emenda, o primeiro álbum sob olhar atento do grande público que o consolida como artista de primeira linha íntegro e consciente.
B FACHADA – B FACHADA
Não houve retoma na economia mas B Fachada regressou primeiros aos palcos e depois a estúdio com um mini-álbum que parte de onde o genial Criôlo deixou. Com mais samples e bases electrónicas minimais mas a festa na aldeia dura até ao lavar dos cestos. Camada sobre camada, constrói uma discografia ímpar.
BATIDA – DOIS
Segundo capítulo do triângulo África-Lisboa-Londres imaginado pela mente fértil de Pedro Coquenão. Dois tem múltiplas leituras duais: o velho e o novo, o pobre e o rico, a África e a Europa, o analógico e o digital. Faz-se a festa enquanto se reflecte sobre o real num álbum que dança sobre a agenda política.
BISON & SQUAREFFEKT – ODYSSEY OF THE MIND
Fascinante odisseia do tarraxo por subgéneros como o r&b digital, o Miami Bass e bandas sonoras como as de Blade Runner assinada por dois “filhos” dos Buraka Som Sistema que se juntam a uma nova fornada de produtores projectados pela Príncipe.
CAPITÃO FAUSTO – PESAR O SOL
Um ano de sol abrasador para os Capitão Fausto motivado por um dos melhores álbuns rock cantados em português gravados em muitos anos. A reputação construída em palco encontrou resposta numa dezena de canções com melodia, músculo e um travo adolescente que faz desta canalha a promessa mais próxima da certeza.
Pesar o Sol na Mesa de Mistura
D’ALVA – #BATEQUEBATE
E #bateu mesmo. Com hashtag incluída. A pop como ela deve ser, sofisticada, agregadora, livre, leve e solta. E popular porque senão não seria pop. A grande revelação do ano com impacto ainda maior em palco. #batequebate tem tudo o que os D’Alva precisavam mas o melhor álbum de Alex D’Alva Teixeira e Ben Monteiro ainda está por escrever.
DEAD COMBO – A BUNCH OF MENINOS
Tó Trips e Pedro Gonçalves não sabem escrever música má. Cada álbum é nova camada riquíssima numa discografia ímpar e sem pressas. No final do ano, foram presenteados com um Coliseu dos Recreios e um Teatro Rivoli esgotados. O justo reconhecimento de uma obra de uma década. A distância ajuda a reconhecer a raridade de uma discografia sem picos nem quebras. A Bunch of Meninos é mais do mesmo em bom.
DJ MARFOX – LUCKY PUNCH
Um tiro certeiro e oportuno do embaixador da Príncipe. Num ano rico em oportunidades – Boiler Room, uma noite no MoMa, festivais, uma mini-digressão pelo Brasil e uma remistura para tune-yards – Lucky Punch fez a ponte entre a música de dança do subúrbio lisboeta e cenas globais como o juke/footwork. Edição de um dos selos na linha da frente da música de dança, a Lit City.
GALA DROP – II
Jerry The Cat desceu à Terra dos Gala Drop mas o espaço manteve-se o centro gravitacional de uma banda que ao segundo álbum se deixou encantar pelos prazeres do dub, a juntar ao gosto já conhecido por Sun Ra, kraut rock e psicadelismo. Canções escritas em Lisboa a pensar noutros planetas. A nave está prestes a descolar.
GONÇALO – QUIM
Mão-cheia de canções primaveris na ponta dos dedos do guitarrista Gonçalo Alvarez, dos Long Way To Alaska. Há Crianças e um Tuga a fechar com portugalidade este EP sublime. Cada um vê a pátria que quer e Gonçalo imaginou um país das maravilhas ao estender a toalha sobre o prado.
HMB – SENTE
Os HMB não têm a rede certa de contactos para ganharem o reconhecimento da imprensa mas essa menor visibilidade em circuitos informados não invalida Sente. Menos baladeiro e mais vivo que o anterior, parte de um óptimo manancial de referências de Prince a Frank Ocean passando por D’Angelo e Kool & The Gang para chegar a um equilíbrio perfeito entre espírito e corpo sustentado por óptimos músicos e arranjos luxuosos.
KEEP RAZORS SHARP – KEEP RAZORS SHARP
Os nocturnos dos Keep Razors Sharp. Um supergrupo sem alarido formado por Luís Raimundo (The Poppers), Afonso Rodrigues (Sean Riley & The Slowriders), Bráulio Alexandre (Capitão Fantasma) e Carlos “BB” António (Pernas de Alicate) e um álbum rock com características ingredientes em vias de raridade: perigo, risco e tensão. Com e sem “n”. Psicadelismo, pop londrina e shoegaze encapsulados num grupo coeso de canções.
Keep Razors Sharp na Mesa de Mistura
LEGENDARY TIGERMAN – TRUE
Cinco anos depois do icónico Femina, Legendary Tigerman ganha fôlego na senda de uma carreira que ganhou terreno aos Wraygunn. Ainda e sempre com os blues como matriz, Legendary Tigerman preenche o minimalismo sonoro com metais, teclados e uma bateria omnipresente. Um disco inspirado e mais parecido com o palco.
MÃO MORTA – PELO MEU RELÓGIO SÃO HORAS DE MATAR
Há já muito tempo que nesta latrina o ar se tornou irrespirável mas os Mão Morta ainda não desarmaram. Álbum punitivo e mais pesado que o seu antecessor, é uma carga não policial de palavras duríssimas sobre a podridão do real. Mesmo que seja em vão. Os ossos de Marcelo Caetano estão de volta ao Palácio de S. Bento e os bracarenses voltam a ser a banda pesadíssima e ácida que precisávamos.
MGDRV – EP
Com os 5-30 e Mike El Nite, os MGDRV trouxeram ventos de mudança ao hip-hop português. Um discurso mais actual e progressista em relação aos habituais sofismas do real e do diz-que-disse e uma produção mais vanguardista ancorada na cultura do bass. Bela estreia num EP concretizado a partir da riqueza dos beats de Apache, das rimas de Skillaz e da visão de Yo Cliché.
A estreia do EP na Mesa de Mistura
NORBERTO LOBO – FORNALHA
A discrição de Norberto Lobo é a antítese da riqueza da obra. De álbum para álbum, constrói uma colecção soberba de peças sonoras que partindo da guitarra como força motriz, têm vindo a afastar-se dos padrões instrumentais conhecidos em busca de um lugar desconhecido mas não deliberado que em Fornalha se aproxima de nomes “estranhos” como Arthur Russell ou Brian Eno. Só podia ser bom.
SENSIBLE SOCCERS – 8
Um dos grandes segredos da música portuguesa, reservado para o mundo. Assim como os Gala Drop, os Sensible Soccers têm tudo para se internacionalizar. 8 foi daqueles álbuns que cresceu, cresceu, até chegar ao fim do ano quase na pole-position. A sério, estas canções viajantes são mesmo especiais e merecem atenção redobrada daqueles que já as ouviram e sobretudo dos que ainda não descobriram.
THROES + THE SHINE – MAMBOS DE OUTROS TIPOS
Os Throes + The Shine avistaram uma praia e o palco é tão suado que não deve faltar muito para o nudismo. Mambos de Outros Tipos parte a parede entre o rock e o kuduro e concretiza uma linguagem una em permanente combustão dançável. “Rockduro é buéda agressivo / Também é dócil (…) leva batida / Leva guitarra/ danças ao ritmo dessa minha barra”. Um caso de identidade inconfundível em fuga da pátria para outras paragens.

Falta aqui o que na minha opinião foi um dos melhores álbuns do anos, falo de Xinobi – 1975
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E já agora aproveito para avisar que alguns dos vídeos estão trocados.
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Obrigado pelo alerta Rodrigo. Já está corrigido.
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