Mesa de Mistura

Rhye no Lux: Outono quente por dentro

Há todo um gabinete de curiosidades que a nudez de Woman esconde. A dupla personalidade da voz de Mike Milosh já fora denunciada quer em vídeos publicados na Internet, quer no concerto do NOS Alive mas se há dois anos, os Rhye sofreram de exposição à algazarra da hora de jantar de um grande festival e, pior do que isso, na vizinhança da zona de restauração, no Lux respeitou-se o silêncio necessário para inspirar a respiração de uma banda em visita de médico para testar canções e mostrar as que foram sendo celebradas e partilhadas nas redes nos últimos dois anos.

A memória foi conservada em local seguro e uma semana bastou para os bilhetes esgotarem. No clube de Santa Apolónia não havia espaço para mais mas a procura entusiasta contrastou com o respeito manifestado pelo público. Quando muito se criticam os novos comportamentos sociais em concertos (paus de selfie, vídeos, telemóveis), o público lisboeta esteve à altura da música e mostrou ter feito o trabalho de casa, não só reagindo aos singles Open, The FallLast Dance como guardando um espaço para a descoberta de novas e prometedoras canções.

Quando o baixo sofreu um percalço técnica (teatro ou azar?), houve poder de encaixa para aceitar a espontaneidade como um mal necessário. The show must go on e, para surpresa generalizada, o vocalista Mike Milosh é um bem disposto, conversador e de humor inteligente na ponta da língua, além dos dotes vocais atribuídos por Deus a que junta ainda o shuffle de baterista quando, em pontuais momentos, preencheu a suavidade rítmica com músculo moderado.

Aquilo que os Rhye construíram é especial e uma sala fechada é o templo desse misto de liturgia, intimidade e calor. O rasto de Sade está por toda a parte mas a banda de apoio a Milosh e ao compositor Robin Hannibal – o exuberante Robocop nórdico das teclas – tem a soul no coração e o balanço na ponta dos dedos. O corpo rítmico está perto das bandas neo soul que se ouvem nos discos de D’Angelo, Erykah Badu, Maxwell ou Bilal.

Depois, há sopros bem educados, um violinista eléctrico e um baixo amanteigado onde deslizam canções de amor sem demasiada sacarina. O quilate da escrita do dinamarquês faz a assistência para a voz abençoada de Milosh que reclama para si também um quinhão do espectáculo, além do intérprete. Ouviram-se pedaços de uma extensa obra em nome próprio menos conhecida mas se onde reconhecem todos os pertences da vitrine de pérolas dos Rhye.

A derradeira It’s Over fechou a capella com arrepios no estômago e luzes baixo um concerto que sem perder o perfume de Outono do álbum, deixa a gabardine no roupeiro e contorna as folhas caídas das árvores sem nunca as pontapear.

Repita-se, os Rhye têm em mãos um tesouro e do que se pode e do que foi dado a conhecer do segundo álbum, a última dança continuará a pertencer-lhes.