NOS Alive: Um festival para inglês vir

Nosalive

Arlindo Camacho

Das quarenta bandas e artistas que compõe o cartaz dos dois maiores palcos do NOS Alive – aqueles que mais expectativa alimentam e vendem bilhetes – dezanove são inglesas e uma (Kodaline) é irlandesa. Metade. Estratégia ou hegemonia anglo-saxónica? Em encontro com os jornalistas, Álvaro Covões defende a segunda opção. “As pessoas conhecem duas bandas belgas, três italianas e a maioria são inglesas e americanas. É o que está disponível no mercado”, defende.

No entanto, há uma tipologia reconhecível nas escolhas do palco NOS e Heineken. Bandas ou artistas pop/rock no sentido mais tradicional do termo. Com diferentes sensibilidades, percursos, idades e identidades mas todos unidos por uma ideia de canção caucasiana, mais romântica ou contestária, adolescente ou madura. No NOS Alive não há espaço para a música negra (soul, funk, hip-hop, r&b) apesar da inclusão crescente entre o público do rock. E de Kendrick estar em Barcelona a dar um concerto na sexta-feira.

Não tem sido esse o percurso de um festival que, apesar das muitas semelhanças faciais do cartaz com o basco BBK, se transformou num mini-Glastonbury com cinco palcos e um pórtico de acolhimento aos visitantes. Mais ameno, menos enlameado e moldado à escala de um país de dez milhões de habitantes num espaço de 11 hectares mas catalisador de massas e turístico.

Quando Lisboa recebe um fluxo de turistas inaudito nas últimas décadas, o NOS Alive assume-se como um festival central e os números previstos confirmam-no. A organização estima cerca de 15 mil estrangeiros no festival, sobretudo britânicos, espanhóis, franceses e alemães. Os países onde o investimento em promoção é mais elevado, explica Álvaro Covões. Por outro lado, o número de bilhetes comprados fora de Lisboa cresceu e a procura pelo campismo desceu, revela, por contraste com serviços hoteleiros como hotéis, hostels e novos serviços de alojamento como a plataforma Airbnb.

Por isso, é de aguardar uma enchente. À lotação esgotada de quinta-feira, o dia dos Muse, somam-se 45 mil entradas esperadas para sexta-feira e sábado onde se destacam The Prodigy, Sam Smith, Chet Faker e Disclosure. Um cenário já antes visto que só irá diferir de noites como as do 30 Seconds To Mars em 2012 e de Arctic Monkeys e Imagine Dragons no ano passado em que a faixa etária baixou.

O promotor não esconde o desígnio da programação. “Temos que fazer um cartaz comercial que cative gente. Temos que apostar forte para cativar”. Apesar de os festivais se terem transformado numa cerimónia social democratizada pelas redes sociais e pelas permissões tecnológicas, a música continua a ser o pulmão.

A mensagem, o cartaz e a política de comunicação têm vindo a aproximar-se da estratégia delineada desde o início pelo Rock In Rio mas numa questão, o Alive bate o pé. Toda a gente a trabalhar no recinto é remunerada o que Álvaro Covões justifica com “os números do desemprego”. “Temos que fazer um esforço nesta fase.Enquanto o nível de desemprego estiver como está, todos têm que ser remunerados, até porque este é um festival comercial”, defende.

A dimensão dos camarins reflecte as proporções do festival. Se há três anos, aquando da visita dos Radiohead, o recinto já tinha sido ampliado por forma a comportar 55 mil espectadores, os bastidores acompanham esse crescimento e mais parecem um aldeamento turístico com bungalows e corredores a perder de vista. “Tudo para os artistas se sentirem em casa”, justifica o promotor. Os Mumford & Sons com 66 elementos e os banjos; os Muse com uma comitiva de 41 pessoas onde já não está Kate Hudson são, neste particular, os recordistas.

Onde o Alive não mudou foi no espaço atribuído a bandas portuguesas. Apenas duas no palco NOS e a abrir as tardes de sexta-feira e sábado – Blasted Mechanism e HMB – e outras duas com revelo no palco Heineken: Cavaliers of Fun na quinta-feira e os repetentes Dead Combo no sábado.

Álvaro Covões queixa-se da “falta de bandas” e do facto de algumas delas tocarem “cinco e seis vezes” em Lisboa ou arredores nos meses anteriores ao festival. Um problema de “exclusividade”, identifica como um dos factores de preferência na selecção do cartaz. Questionado sobre o nascimento de festivais só de música portuguesa, o promotor responde: “a que preço?”.

Uma selecção nacional composta por nomes como Batida, X-Wife e Capicua passará pelo palco NOS Clubbing. O coreto situado atrás do Palco Heineken só tem um forasteiro: o rapper de Atlanta, Raury, no sábado.

O NOS Alive decorre de quinta-feira a sábado no Passeio Marítimo de Algés. Os bilhetes para sexta-feira e sábado e os passes para ambos os dias ainda se encontram à venda. Cartaz completo

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