A maioridade do Sudoeste

MEOSudoeste

Todos os anos, o Sudoeste é o saco de boxe favorito dos festivais. O treino começa quando o cartaz é anunciado às fatias e sobe à arena em Agosto quando a Zambujeira do Mar sofre um interregno na calmaria e recebe a semana de férias favorita de quem sai debaixo da asa dos pais. Tudo porque o festival sofreu uma mutação profunda de uma orientação “alternativa”, isto é a música que a inteligência aprecia, para um perfil centrado nos gostos adolescentes. Electrónica de estádio, hip-hop, sobretudo o português, e música afro-lusitana. O SW foi o primeiro a perceber que as gerações nascentes não ouvem rock e são afectadas pelo ritmo e pelo volume. Quanto mais ruidoso e físico melhor. E de preferência com graves. Muitos graves.

O sufixo destes comentários é sempre o paternalismo do “no muito tempo não era assim” ou do “os adolescentes de hoje são superficiais”. O fado é antigo e repetido. São os filhos a portar-se como os pais que rejeitaram na adolescência mas importa desmistificar alguns mitos. A infantilização do Sudoeste começou há dez anos quando o patrocinador principal mudou. A entrada da TMN baixou o alvo etário do festival. À marca podem também ser imputadas ideias como a roda gigante mas não é possível descontextualizar as questões do tempo em que se situaram. A mudança de paradigma do SW começou um ano depois do primeiro Rock In Rio e, apesar de os promotores não o reconhecerem, há um antes e um depois do evento da Bela Vista do ponto de vista de quem olha para um festival ancorado na música como um acontecimento.

A mudança facial foi um primeiro aviso da mudança de mentalidades imposta pelo Rock In Rio e do crescimento dos festivais nacionais. As transformações foram graduais mas é bom não esquecer que foi no intervalo da última década que aconteceram três dos espectáculos mais memoráveis na história da música ao vivo em Portugal. Humanos em 2005, Daft Punk em 2006 (com Buraka Som Sistema em simultâneo no palco secundário) e Kanye West são noites inesquecíveis e, talvez irrepetíveis. Os dois últimos merecem uma caminhada a pé até ao Cercal só para voltarem a Portugal.

Recordar o último “Sudoeste musical” é voltar à pré-história. Um cartaz regular com a melhor nova banda desse ano, os Franz Ferdinand, os Da Weasel no auge, uns Kraftwerk deslocados, uns Air soporíferos e ainda a expectativa por um Arthur Lee que acabou por não aparecer. Without love, portanto. O quadro era frio e despido. O festival não vivia além dos concertos. Havia o canal, os parques de campismo e a povoação mas nada comparado com a movida de anos posteriores.

#Tusovives1x diz um dos slogans do festival mas o Sudoeste atinge este ano a maioridade em plena segunda vida. Jogou na antecipação e venceu. Não há comparação entre o número de festivais de então e agora. Dez anos são muito tempo e o milagre da multiplicação ocorreu. Há para quase todos os gostos. Mainstream como o Rock In Rio e o NOS Alive. Alternativos como o Paredes de Coura e o NOS Primavera Sound. Apontados aos adultos como o Super Bock Super Rock ou à selecção de esperanças como o Vodafone Mexefest. De rock como o Reverence Valada ou electrónicos como o Neopop ou o Lisb-On. De música portuguesa como o Bons Sons ou lusófona como o Sol da Caparica. Musicais ou vivenciais como o Boom. De grande, média ou pequena dimensão. Internacionais, regionais ou locais. Falta um Sónar. E um bom festival de música negra que combata o preconceito generalizado dos promotores.

A proliferação obrigou a um processo natural de fragmentação. O Sudoeste encontrou o seu caminho e acertou. Umas mini-férias de verão longe dos pais, a música popular entre as camadas adolescentes e pequenos prazeres para quem os descobrir como os croissants da Mabi, a Casa do Capitão ou o marisco das Azenhas do Mar.

Pode não ser o melhor cartaz, pode já não apelar a quem cresceu com o festival, pode ser impopular defendê-lo mas o Sudoeste é honesto na sua missão. Antes ser aquilo que é do que querer parecer aquilo que já não é. A Elsa encontrou a sua identidade e não tem culpa que os tais não a compreendam.

Lianne La Havas: Diamante de sangue

Liannelahavas

Como tantas outras vozes, a estreia de Lianne La Havas caía em graça e prometia um futuro melhor. Blood é, por contraste com o chavão, um segundo álbum de encantamento fácil onde a expressividade da intérprete polariza sobre uma escrita feita de elementos acústicos simples.

Há poucas semanas, a estreia do documentário biográfico Amy reacendeu a curiosidade sobre o inicial Frank. As virtudes são enfatizadas pela narrativa sincera de vida de Amy Winehouse – a intérprete já lá mora, falta-lhe o palácio sonoro imaginado por Mark Ronson – mas os defeitos são expostos sem desaforo pela grandiosidade de Back To Black. Ao pé da obra-prima, o álbum de estreia é como comparar a Serra da Estrela como os Himalaias.

Vem este paralelo a propósito da facilidade com que se criam e destroem heróis. Se o Hype Machine fosse um banco, não haveria bancos intervencionados, dívidas dos países africanos à Europa e economias desestruturadas. Bastava recorrer à Dona Branca virtual sem taxas de juro ou spread. 

A realidade é outra e basta voltar a promessas como Corinne Bailey-Rae ou casos de triunfo comercial como Duffy para recordar nomes caídos no esquecimento. O que hoje é verdade, amanhã é mentira e não só no futebol.

Lianne La Havas vem de uma tradição soul inglesa com sonhos americanos em constante renovação e pertence à mesma geração de Laura Mvula. Esteve na corrida pelo prémio revelação BBC Sound Poll, nomeada para o Mercury Prize, elogiada e convidada por Prince a abrir concertos e a participar em Art Official Age.

Boas dicas mas a prova cabal está em Blood, um álbum de solidão partilhada com o mundo onde a La Havas é não só intérprete como instrumentista e autora. Tal como Amy Winehouse com quem partilha o gosto musical pela soul clássica e as histórias de amores errantes, salvação e queda.

O peso da palavra é equitativo com o da música. O mundo de Lianne La Havas pula e gira entre o heroísmo de Unstoppable, o passe confiante de What You Don’t Do, a massagem asiática de Sade em Tokyo e baladas. Várias baladas.

Não lhe peçam o céu de Back To Black; para a dimensão mortal, Blood é um confessionário sincero de sentimentos universais valorizado por uma voz de anjo. Não é transcendente mas a humanidade é a sua conquista terrena.

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Clube de Vídeo #30

Miguelcapa

Habituámo-nos a associar o prefixo gangsta ao rap devido aos combates de costa a costa entre o Este e o Oeste do hip-hop americano mas agora que o conflito se joga noutros tabuleiros – vidé a a batalha verbal entre Drake e Meek Mill, Miguel propõe um modelo híbrido. O gangsta r&b de NWA, acrónimo de nigga with attitude, nome do colectivo pioneiro do gangsta rap (Niggaz Wit Attitudes), e título de uma das canções do crescido Wildheart

No vídeo, Miguel passeia-se por Los Angeles vestido de cabedal rockeiro até encontrar Kurupt de carro. Funk pecaminoso, a soul natural de Miguel, o rap do Oestre de Kurupt e a pose rock’n’roll do protagonista soam a música sem fronteiras de auto-confiança ilimitada.

Estamos no pico do verão mas chovem vídeos por todo o lado e esta foi a semana de For Free? de Kendrick Lamar e Ur Life One Night da Unknown Mortal Orchestra só para citar os mais importantes.

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Pré-Escuta #28 e #29

Chelseawolfe

CHELSEA WOLFE – ABYSS

PJ Harvey sobre superfícies vulcânicas? FKA Twigs protegido por manto cobertor eléctrico? Para estas e outras questões, a resposta é Chelsea Wolfe. A bela a lutar contra um monstro metálico, feito poço sem fundo de fantasmas, demónios interiores e feridas por sarar. A beleza de Abyss está na relação entre a sensibilidade da protagonista e a escuridão da banda sonora. Chelsea Wolfe mune-se de poesia terminal sobre o sentido de existência e canta ternurenta enquanto é engolida pela larva. A morte comanda a vida e dá sentido a corações góticos partidos. Ouvir

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Lado B #28 e #29

Drake

A semana foi intensa para Drake. Meek Mill acusou-se de não escrever as próprias canções – alguém devia mostrar-lhe um artigo da Fact sobre ghostwriting no hip-hop e explicar-lhe que, por exemplo, Frank Sinatra não escrevia as suas música – e o rapper-cantor reagiu ao nível Nothing Was The Same. 

Sem nunca se dirigir ao inimigo – a resposta directa veio do produtor Noah “40” Shebib – usou o programa de rádio na Apple Music para estrear uma colecção de pérolas de elevado quilate. Uma delas é uma remistura de Hotline Bling, baptizada de Cha Cha pelo tropicalismo de uma produção com traços faciais de latinidade.

No hip-hop, o conceito de remistura é lato e, passa muitas vezes por acrescentar versos de um ou mais rappers. Neste caso, é mesmo um inédito. Que os beefs continuem a gerar canções com tanta sangue como esta e todas as outras despejadas por Drake nos últimos dias.

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Nova ordem mundial

Boombox

Num artigo escrito para o GuardianPaul Mason defende que entrámos na era pós-capitalista e identifica as tecnologias de informação, as novas formas de trabalho e a economia da partilha como as razões para este novo passo na história. Se substituirmos “trabalho” por “distribuição”, a indústria da música é uma réplica deste processo de reorganização transversal à sociedade e que, em anos próximos, irá implicar a robotização progressiva da mão de obra e a substituição da mão humana – é um mito a ideia de que as máquinas ocuparam o lugar dos homens quando mais de 90% das profissões são seculares.

A chegada de novos agentes como o Tidal e o Apple Music ao campeonato do streaming confirma o fim da era experimental destes modelos e o avanço para um tempo de consolidação onde se discutem preços, serviços de assinatura ou subscrição, exclusividades, privilégios sonoros ou no acesso ao conteúdo mas não o formato.

As novas gerações crescem sem ligação com o objecto e o Spotify foi o primeiro a perceber que o dinheiro podia cair da nuvem. Na tecnologia, o valor da ideia é essencial e a equipa sueca soube encontrar o tempo certo entre pioneirismo e necessidade de consumo – o MySpace teve razão antes de tempo e, tal como a grande maioria das startups, não conseguiu dar o passo para um modelo de negócio sustentável.

O trinómio defendido por Paul Mason traduz-se desta forma na pauta: as tecnologias de informação representam o acesso (mobile, desktop, gadgets); as novas formas de distribuição são todos os serviços de streaming e plataformas como YouTube, Soundcloud e Bandcamp onde a música pode ser ouvida; a economia da partilha são as redes sociais e a Internet em geral. E por redes sociais, entenda-se as novas praças, cafés e mesas onde se vê, ouve e discute. Um novo mainstream democratizado, sem filtro e imitado pelos media tradicionais. Já não são as televisões, rádios, jornais e revistas a comandar o gosto. É a inversão de papéis com reflexos como o investimento em estratégias de relações públicas a uma escala micro, novas operações digitais e um  desafio mais complexo apresentado aos pensadores: como conciliar a objectividade de uma visão com a gestão de expectativas de quem nos pode seguir? A fronteira entre mundo e aldeia nunca foi tão fina.

Nem todas as questões têm resposta mas há números para certificar algumas das transformações. Por exemplo, o falhanço do Tidal, um nado-morto que apostou todas as fichas na capacidade de mobilização dos cabeças de cartaz Jay Z, Beyoncé e restante corte formada por Kanye West, Daft Punk, Madonna e Arcade Fire à média de um por nicho. A Internet costuma desconfiar deste tipo de chuva de estrelas e ainda gostou menos de encontrar uma cópia do Spotify no interface. Como tal, rejeitou-o e os ratos começaram a saltar do barco. CEOs demitiram-se, Kanye West apagou todas as referências, ameaça de um processo da Sony por utilização indevida do catálogo de Beyoncé e um processo em tribunal pela Cash Money pela apropriação da exclusividade do novo álbum de Lil’Wayne. Como o Tidal pouco ou nada fez para enfatizar a qualidade sonora superior do serviço, não chegou sequer a ser um beliscão no Spotify e enfrenta um caminho penoso se não quiser ser o centésimo problema de Jay Z. Os últimos números indicavam um número de assinantes abaixo do milhão.

Um caso diferente é o do Apple Music. Protegido pela almofada da mais poderosa companhia tecnológica, a má imagem criada inicialmente foi resolvida com um golpe karateca à Steve Jobs. Depois de diversos artistas e editoras independentes terem reclamado contra a ameaça de a Apple remover catálogos do iTunes se estes não concordassem em ceder os seus direitos a troco de nada durante os três meses de utilização gratuita do serviço, entrou em cena Taylor Swift. E bastou um artigo no Tumblr para se tornar a artista mais poderosa do universo. “Nós não vos pedimos iPhones grátis. Por favor, não nos peçam para providenciar a nossa música sem retorno”, foi o remate necessário para a Apple fazer marcha-atrás e recuar na chantagem.

Os efeitos colaterais foram positivos. Taylor Swift que mandara retirar todo o catálogo do Spotify antes da edição de 1989 regressou ao mercado do streaming. Crónicos opositores como Thom Yorke e os AC/DC cederam por fim e aceitaram disponibilizar a sua obra. Os primeiros resultados são animadores: dez milhões de utilizadores em cerca de dois meses – todas as modalidades do Apple Music são pagas. De acordo com fontes de editoras, algumas canções atingiram resultados parecidos com os do Spotify. Só o tempo dirá mas tudo indica que a maturidade do mercado abra espaço para dois rivais de peso.

Perante este cenário, a unificação de um dia global de edição, a sexta-feira, é uma medida sem peso nem impacto. Já o vinil surge como um bibelô gourmet apropriado pela cultura visual do Instagram. O disco é, de facto, um objecto fascinante com o carisma que a impessoalidade do CD nunca terá. Tem cheiro, cor, vida na capa e uma relação que é mais do que pessoa-objecto mas não tenhamos ilusões. Para um vinil atingir todo o seu esplendor, exige uma aparelhagem de preferência a válvulas, um bom prato e uma agulha bem estimada. Já se percebeu que no tempo social em que vivemos os olhos comem mais do que os ouvidos e o mercado do vinil abastece-se sobretudo de prensagens e reedições com áudio de CD.

Foto de Dan Medhurst

Clube de Vídeo #29

Thundercatvideo

O mistério é largamente subestimado pela sociedade Big Brother imaginada por George Orwell antes sequer de ser real e aceite como um dado adquirido mas essa é a riqueza dos criadores visionários. Colocar questões, apontar pistas, sugerir soluções sem impor uma opinião.

Them Changes já fora apontada neste espaço como uma das canções do ano. Uma ode ao experimentalismo em laboratório familiar de canções de bússola jazzística, segundo o glossário da Brainfeeder e o sotaque de Thundercat.

O vídeo de Carlos Lopez Estrada é tão atípico quanto a canção e centra o músico numa luta de samurais, um dos fétiches do baixista de acordo com o realizador. A luta continua.

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