Há um túnel que nunca se apaga na vida de Amy Winehouse

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Na memória, as biografias visuais de Amy Winehouse e Kurt Cobain serão recordadas por terem estreado no mesmo ano mas há muito mais a uni-las. Duas crianças aparentemente felizes, o desmanchar da coesão familiar, as patologias, uma depressão por curar, a busca por uma válvula de escape social, o talento, a relação pura com a música, o sentido de humor dotado, a explosão mediática, a incapacidade em lidar com o êxito, as drogas, o tráfico dentro de portas e o fim anunciado. Ascenção inesperada e queda previsível. Livre trânsito no clube dos 27. Repete-se a história, só mudam os protagonistas.

Há uma grande diferença, porém, entre os dois filmes. Enquanto Montage of Heck, revolve os caixotes disponibilizados por Courtney Love de um ponto de vista quase acrítico, centrando a narrativo no homem por detrás do artista, Amy: The Girl Behind The Name aponta o dedo à sociedade do espectáculo e imputa responsabilidades aos media, ao pai Mitch, ao manager Raye Cosbert e ao ex-marido Blake Fielder-Civil.

O realizador Asif Kapadia repete o template de Senna para contar a história na horizontal, isto é desde as primeiras filmagens disponíveis em família até à crónica de uma morte anunciada. Quando o filme começa, já sabemos como termina mas há pontos determinantes para compreender o desfecho. Uma primeira crise pré-Rehab sofrida em Espanha quando se vê longe de Blake e este termina uma relação acidentada por mensagem. Amy vê no álcool a resposta e acaba no hospital. O episódio não serve de exemplo para uma cura mais profunda mas teria havido um Back To Black sem traumas? Seguramente não.

A primeira overdose no verão de 2007 transforma a vida de Amy Winehouse num Big Brother mediático. Cada passo é seguido por uma câmara e o Inferno desce ao Céu. A voz divina é reduzida a um esqueleto de bruxa má que vai e vem com o tempo passado em reabilitações. O encarceramento do marido só agudiza o problema e, a partir daqui, a luz ao fundo do túnel desaparece.

Por cada raio de esperança, há um trovão a cair sobre a cabeça de Amy Winehouse. A vitória nos Grammys, o novo namorado Reg Traviss, as férias na ilha de Santa Lúcia, a reabilitação anímica, o entusiasmo nas gravações com Tony Bennett e a vontade de formar uma nova banda com Mos Def (Yasiin Bey) e Questlove? para gravar um álbum de jazz moderno parecem sempre insuficientes para devolver a força a um corpo debilitado e uma alma resignada perante a aproximação da morte.

Faltam alguns momentos decisivos no processo de auto-destruição. O concerto trágico no Rock In Rio e uma digressão “razoável” pelo Brasil em 2011 que legitima a marcação de alguns concertos na Europa – entre os quais estaria o Sudoeste. Amy estaria contra e para chegar ao Belgrado foi posta sedada num jacto privado. Quando chegou ao palco, não sabia onde estava e recusou-se a cantar. “Ela já não queria saber”, aponta um dos músicos dos Dap-Kings, a banda de suporte. Era o fim.

Talvez pela história ainda estar fresca na memória, Amy: The Girl Behind The Name é, além do final conhecido, um filme previsível onde o dedo é apontado em riste à ganância do pai, à passividade do manager e a um aquário de sanguessugas chamado paparazzi. 

De facto, todos assistimos ao triste epílogo de uma voz abençoada como Nina Simone, Billie Holiday e Ella Fitzgerald mas não foi a sociedade a servir-lhe doses de crack e heroína. Foi Amy Winehouse quem se apresentou cambaleante e alienada perante o mundo e não o inverso.

Kapadia vitimiza-a mas vale a pena acreditar na sensibilidade do público. Amy: The Girl Behind The Name devolve a emoção à transcendência do talento, revela pormenores menos conhecidos como o humor tipicamente britânico, retrata a humildade da personagem e, tal como em Montage of Heck, questiona a dependência entre as feridas internas por sarar e o sangue lambido numa obra curta mas eterna. Quem sofre assim, sabe onde mora o destino e conhece-lhe as paragens.

Re-Definições: quarenta anos, vinte de canções de Carlão

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Os Quarenta titulados por Carlão no primeiro álbum em nome próprio assinado com a alcunha de adolescência já o são formalmente desde segunda-feira. Isto significa: parabéns Carlão!

“O mesmo puto de sempre, o mesmo parvo de sempre”está agora “um pouco mais experiente” e das quatro décadas de vida agora completas, duas pertencem ao imaginário colectivo das canções mais marcantes do Portugal musical desde os meados dos anos 90.

Recordamo-las em vinte capítulos unidos pelo comité central de Carlos Nobre Neves: a palavra. Doce, amarga, ácida, de conforto ou auto-destruição. Romântica, combativa, atenta e urgente. Poética por re-definição.

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A fórmula química ainda resulta na física

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Às grandes lideranças, o desafio é continuar a incutir nas tropas um disco verosímil perante os focos de oposição, naturais em quem disputa lugares cimeiros. Que o digam os Chemical Brothers, embaixadores do big beat e detentores de uma das mais valiosas galerias de singles electrónicos dos últimos vinte anos.

O seu lugar é incontestável em festivais ou outros cartazes de semelhante impacto e depois de os Justice terem falhado o assalto às posições cimeiras, só os Disclosure conquistaram à primeira tentativa um estatuto parecido onde a credibilidade se concilia com uma transversalidade na cultura pop maior do que o circuito electrónico. Mas por opção própria ou cansaço do mediatismo constante, o imersivo Further (2010) e a banda sonora Hanna (2011) passaram a leste das atenções. E nos quatro anos de intervalo entre a música para o filme e este Born In The Echoes, aconteceu um advento chamado EDM ao qual dizem não pertencer. Ainda bem.

Posto isto, este retorno à fórmula química da física, às balas sobre a multidão e à cumplicidade com entidades externas (Q-Tip, St. Vincent, Beck) é um regresso à normalidade encerrada no magnífico We Are The Night e a prova da vitalidade de um duo que desde sempre soube encontrar a sua dialética e de a desenvolver sem nunca se esgotar.

Born In The Echoes não traz novos mundos ao mundo laboratorial e psicadélico de Ed Simons e Tom Rowlands mas devolve a nave Chemical Brothers à órbita dos grandes planetas digitais onde viajar e experimentar ainda é um prazer garantido. Revisão da matéria dada, baralhar e voltar a dar e sequelas a cada cena do oitavo episódio – Go resgata Q-Tip para a “segunda parte” de Do It Again, Reflexion é a cábula techno das quatro da manhã.

Na história da música desde o Séc. XX até hoje, a memória de percursos com vinte anos de longevidade válida e inventiva é rara o que faz dos Chemical Brothers e dos Daft Punk os Rolling Stones, Bruce Springsteens e David Bowies da música de raiz electrónica. Pedir que reinventem a roda é demasiado; se ela continuar a girar já é um acto de resistência.

Guest List: Miguel Torga

Migueltorga

Miguel Torga não escreve poemas mas também joga com as sensações e usa as palavras para chegar ao destino sensorial. Por exemplo, Lisnave do EP homónimo de 2012. Ou Termas de Cabeço de Vida Serra da Gardunha do novo e viajante Turista, composto por três faixas de assinatura própria e remisturas de Kaspar e Pedro Goya. 

Imagens que compõe um edifício sonoro alicerçado no dub techno e no house sem medo de assumir referências nobres como a autoridade de Detroit, Carl Craig, e o berlinense Moritz von Oswald. À procura da relação perfeita entre balanço físico e idiossincrasia.

Como bom melómano, a dieta de Miguel Torga é supra-electrónica e não dispensa outros prazeres. Um baralho completo de rock, soul, bossa, punk-funkdeep house onde só entra música sentida.

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Clube de Vídeo #28

Vincestaples

Cristiano Ronaldo é o melhor jogador do mundo. E Messi? O melhor de outro mundo. Na colecção hip-hop 2015, Kendrick Lamar é de outro planeta mas entre comuns mortais, humanos, terráqueos com falhas e imperfeições, Vince Staples é quem tem a melhor colecção de instrumentais.

Nova prova do quilate sonoro do inaugural Summertime ’06 está no vídeo a preto e branco de Norf Norf onde é transportado no banco de trás de um carro da polícia para a esquadra enquanto incita à provocação em versos explícitos de sabotagem social.

(para ver a lista completa basta carregar no título do vídeo)

Super Bock Super Rock: o balanço

Blursbsrorganizacao

O rock voltou à cidade e veio para ficar. O mutante Super Bock Super Rock emagreceu no orçamento e assumiu o papel de Sporting dos festivais. Mais económico nos recursos, menos ambicioso nas ambições mas ainda a lutar por um bom cartaz. Adulto, de inclinação à esquerda, atento a sangue novo e impulsionador da música portuguesa emergente. O resultado foi um festival sem atropelos, amigo do utilizador e com uma segunda noite total. Chega para pagar as contas? É a grande questão que se coloca a um SBSR camaleónico a quem só se viu um grande problema na viagem para o Oriente: o som. Em 2016, a residência repete-se de 14 a 16 de Julho.

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