O G7 que gostávamos de ver no NOS Alive

Radioheadoptimusalive

Foto de Luís Martins

Os cabeças de cartaz dos festivais são uma espécie de G7 mundial em que é mais fácil excluir um gigante como a Rússia do que incluir uma potência como o Brasil. Uma maçonaria imóvel e impenetrável, pouco disponível à abertura e sugadora de orçamentos. As bandas e os artistas grandes estão para o mercado da música ao vivo como o Real Madrid, o Chelsea, o Barcelona ou o Bayern de Munique para a Liga dos Campeões. Todos os anos chegam, no mínimo, aos quartos-de-final e quando assim não é, o alarme toca.

Por isso, esta publicação é uma profissão de fé com letra quase morta motivada pela notícia de que esta semana serão anunciados os primeiros nomes para o NOS Alive do próximo ano. E dado que o jogo dos cabeças de cartaz é uma rotunda em que circulam quase sempre os mesmos carros, ninguém ficará espantado se nomes como Foo Fighters ou Coldplay figurarem nos antigos cartazes laranja afixados em Alcântara à altura dos olhos dos utentes da CP. E por outro lado, são urgentes férias dos Arctic Monkeys e dos Queens of the Stone Age.

As escolhas que se seguem têm por base critérios com a dimensão popular, a relevância na cultura pop, a ausência ou pouca presença no circuito nacional de festivais, a ruptura com a lógica “mais do mesmo” instituída de há muito, a necessidade de o eixo pop/rock se abrir a outras linguagens e a perspectiva de novos álbuns ou digressões.

Para já, escolhem-se os cabeças de cartaz capazes de revitalizar um festival em decréscimo de interesse nas últimas duas edições. Mas não tenhamos ilusões, se um destes G7 vier a Algés todas as garrafas de champagne são poucas.

Read More

Pasta da Reciclagem: Arcade Fire – Funeral

Arcadefirefuneral

Funeral foi oficialmente editado a 14 de Setembro de 2004 mas só no final do ano o mundo começou a ver a luz de um álbum que apesar do baptismo sombrio, é uma imensa celebração de vida. Nas habituais listas de final de ano, os Arcade Fire só ganharam assiduidade em 2005, pois foi nesse ano que o “whooaa” começou a fazer escola.

Durante os preliminares, a avó de Régine Chassagne morreu em junho de 2003, o avô de Win Butler em março de 2004 e a tia de Richard Reed Parry em abril do mesmo ano. Estava encontrado o título perfeito para uma estreia que não só lançaria a escada para uma das mais imitadas bandas dos anos seguintes como aquela que chegada de um circuito independente, ganhou dimensão global, graças também a verdadeiras maratonas épicas de palco e geniais campanhas de marketing. Nenhum dos episódios seguintes da discografia aporta a joie de vivre de Funeral, obra de grande fôlego humano directamente ligada ao coração.

Funeral caiu no epicentro do rock revivalista mas apesar de referências ancestrais como Talking Heads ou Bruce Springsteen, não se deixou ser refém do passado e olhou para a frente perscrutando questões pessoais tanto quanto mantras sonoros. É um disco simbólico de um tempo de mudança simbolizado pela princípio da ascenção dos nichos e pela diluição do mainstream. Dez anos depois, a prova dos nove é evidente. A ânsia por um novo álbum dos Arcade Fire é inversamente proporcional ao desinteresse por novo material dos U2.

Dois álbuns depois, os Arcade Fire ganhavam o Grammy para Melhor Álbum Rock com The Suburbs e Bon Iver o de Artista Revelação. A música dita independente era centralizada e entrava em saudável contradição. Seria o alternativo o novo centro? Não necessariamente. Desde os Pink Floyd aos Nirvana, Rage Against The Machine ou Strokes, sempre houve bandas infiltradas no sistema. A diferença é que os grãos de areia na engrenagem ganhavam uma espessura inaudita porque o motor da máquina se abrira a outros fabricantes. De outra forma, estariam condenados a ser uns Olivia Tremor Control ou, no limite, Flaming Lips do seu tempo.

Filhos da democratização da peneira, os canadianos contribuíram também para uma maior compreensão do que passaria a chamar-se erradamente de indie. Indie não é um estilo de música, é um posicionamento na lateralidade tão válido para o rock como para outro género. Mas Funeral em particular é um mediador entre a leva nova-iorquina de Strokes, Liars, Yeah Yeah Yeahs ou Interpol e o novo rock de arena personificado por Killers, Kings of Leon e mais tarde Black Keys. Os Arcade Fire foram aqueles que construíram uma ponte mais sólida entre o amor platónico e o compromisso de uma das maiores bandas do mundo.

Funeral foi o primeiro olhar irresistível e a conquista imediata graças a canções monstruosas como Neighborhood #1 (Tunnels)Rebellion (Lies) Wake Up. Rock encorajado pela morte, animado por instrumentos clássicos como o violino e o acordeão, coeso por um grupo que passa para a multidão o ideal colectivo de partilha. Um gesto de auto-ajuda solidário para com as plateias de festivais e a geração de contemporâneos que encontrou nos Arcade Fire um possível substituto para os Radiohead entre o leque de referências centrais.

A vida para além de Funeral continuou com a solidez de Neon Bible e o risco de Reflektor – The Suburbs é apenas burguês e conformado – mas a imortalidade foi ganhar no madrugar de uma carreira que atinge a longevidade hoje invulgar de dez anos sem marcas de desgaste.

Vídeos da Semana 25.14

Arcadefirerockinrio

Glastonbury é um termómetro dos festivais de verão e apesar de a edição deste ano só terminar este domingo, os vídeos oficiais disponibilizados pela BBC já permitem tirar ilações:

– que Jack White é a grande ausência deste lado do mapa na temporada estival;

– que o espectáculo dos Arcade Fire cresce a cada noite (não houve versões mas vieram bailarinos dar cor à festa) e que no palco certo ganha contornos de transcendência;

– que Kelis ganhou quilos de diva e está hoje mais próxima de Aretha Franklin do que de Beyoncé;

– que os MGMT têm tanta vontade de voltar a um acidente electro pop chamado  Kids como um operário tem de sair de casa às 06h30 da manhã para apanhar o barco para Lisboa. Prevê-se o pior no Alive;

– que as Haim exalam suor CK One e têm os esgares mais sexy do rock.

Read More

Dez conclusões a tirar do concerto dos Arcade Fire

Arcadefirerockinrio1

1.  Os Arcade Fire deram um bom concerto.

2. O Rock In Rio fez bem ao contratá-los. Não só preencheu o dia canhoto do cartaz com a maior banda alternativa dos últimos anos como retirou um trunfo à concorrência. O Optimus Alive ainda tem um cabeça de cartaz por preencher. O Super Bock Super Rock tem os Kasabian (?!). Ambos tinham uma vaga em aberto para os canadianos. Quem não gostaria de os ter em 2014? O Boom? São um dos poucos nomes pós-Internet que vende um festival inteiro. Passes e não bilhetes diários.

3. O cartaz do Rock In Rio é escolhido não de forma arbitrária mas por estudos de mercado. Todos os anos, há uma noite dedicada ao rock alternativo por onde já passaram nomes como os dos Foo Fighters, Muse ou Linkin Park. Todos menos queridos da imprensa e sem a preparação mediática que o anúncio dos Arcade Fire envolveu. Alguma coisa se perdeu pelo meio.

4.  Reflektor entrou para o primeiro lugar de tudo o que é tabelas de vendas (Portugal incluído) e foi precedido de uma campanha publicitária massiva. Os vídeos são autênticas curtas-metragens assinadas pelos melhores realizadores (Anton Corbjin, Vincent Moon). Os Arcade Fire são hoje uma banda mainstream que esgota salas e arenas. Há dúvidas?

5. O público não acorreu em massa como se previa. 47500 espectadores (números oficiais) é pouco acima das noites mais frias de Rock In Rio. Por exemplo, há quatro anos quando os Rammstein foram designados para encabeçar o dia do metal poucos meses após terem esgotado Pavilhão Atlântico.

6. Poucos mas bons. Só que insuficientes. A noite foi de júbilo para quem estava mas a ordem de grandeza do Rock In Rio não é familiar. O que fez a diferença entre o bom e o memorável foi a troca de energia. O povo é quem mais embala e do ponto de vista meramente popular a expectativa não foi correspondência.

7. 47500 espectadores davam casa cheia ao Optimus Alive, uma guerra civil no Meco, um incêndio em Paredes de Coura e um processo camarário ao Primavera Sound. No Rock In Rio, só uma constipação disfarçada por uma tocha.

8Royals é um single maior que qualquer um que os Arcade Fire já tenham escrito. Maior não significa melhor mas tão somente capaz de parar o festival desde os melómanos às criancinhas e aos VIPs. Aquilo que se viu nos Rolling Stones. Aquilo que se vai ver em Justin Timberlake.

9. As canções de Neon Bible são injustamente ignoradas. As de The Suburbs exageradamente lembradas. Urge a substituição.

10. Não há amor como o primeiro. Em Paredes de Coura é que foi.

Arcade Fire no Rock In Rio: Do funeral fez-se a festa mas só para alguns

Arcadefirerockinrio

Para quem estivera na cidade do rock dois dias antes, o cenário era desolador. A banda que fora anunciada com direito a convite personalizado à comunicação social era afinal a que menos público motivava. Serão os fãs dos Arcade Fire a recusar um festival com esta ordem de grandeza ou o visitante médio do Rock In Rio a rejeitar a noite do rock alternativo? Qualquer que seja a resposta, é um desgosto para a concorrência. O cabeça de cartaz mais pequeno do Rock In Rio seria o maior em todos os outros festivais. Primavera Sound, Alive e Super Bock Super Rock todos tinham lugar reservado no cartaz aos canadianos. Falou mais alto a lei da oferta e da procura porque a banda que levou Paredes de Coura literalmente às lágrimas é hoje uma corporação grandiosa.

Ainda assim, não tanto quanto o Rock In Rio. O concerto é bom, a plateia reage mas falta a dimensão planetária de uns Rolling Stones, de um Justin Timberlake ou de uma canção como Royals que uma hora antes é capaz de parar um festival e despertar uma corrida desde os topos até à boca de palco, como foi possível observar. A soberania popular que  faz dos concertos acontecimentos perde-se num festival com características como este. O povo é soberano e a formatação do cartaz é feita a pensar nos diversos nichos. Os Arcade Fire chegam a 2014 como o nome maior da mais pobre da fornada de bandas rock desde os anos 60 – misto do balanço dos Talking Heads com a energia punk disseminada dos Clash, a veia arty de David Bowie e as infiltrações disco dos LCD Soundsystem – e um álbum de confissões na pista de dança, o melhor desde a celebração espontânea de vida no quase-imortal Funeral sem nada a apontar-lhes.

A transição do culto de exclusividade para as massas foi suave mas é em noites como esta que nos devemos se a nação alternativa tem o peso que a imprensa e os blogues lhe dão ou se simplesmente anda em círculos. Menos de 50 mil espectadores (47500 para ser preciso) é muito pouco para tanta atenção mediática e fazer manchetes diariamente não é igual a cativar o público. Devem os espectáculos ser julgados pela reacções popular? Seguramente que não mas no Rock In Rio o décimo segundo jogador é o mais influente e é ele que faz a diferença entre o bom e o memorável. Não foi o (segundo) caso.

Começam com a canção titular do magnífico álbum do ano passado, avançam sem pausas para Flashbulb Eyes e a nave levanta voo com a dupla Neighborhood #3 (Power Out)Rebellion (Lies). De repente estamos na pista do Incógnito a dançar com óculos de massa, All-Star modelo recauchutado e companhia politicamente canhota depois de uma noite a discutir a morte anunciada do Bloco Esquerda e o parto do Livre. 

Os Arcade Fire cometem o erro de ignorar Neon Bible e regressar ao burguês The Suburbs, exercício rock americano clássico sem nada a acrescentar à tradição e que foi necessário “retaliar” com o gingão Reflektor, mais celebrado ao nível das ancas do que dos pulmões. Uma reacção notada em Heart of Glass, versão repetida dos Blondie entrelaçada com Sprawl II (Mountains Beyond Mountains).  Terminam arrebatadores com Here Comes The Night Time Wake Up; em vez de lágrimas como em 2005 em Coura, há mil sorrisos mas, ao contrário dessa noite, não se pode falar de um concerto transcendente ou de uma noite memorável.

Talvez a cerimónia triunfal dos canadianos ainda não tenha chegado ao céu, talvez o festival esteja talhado para outro tipo de propostas mais à direita ou talvez seja o reflexo do desinteresse crescente no rock enquanto último bastião da subversão mas os Arcade Fire saem do Rock In Rio como o cabeça de cartaz menos desejado e como o representante do rock alternativo (Foo Fighters, Red Hot Chili Peppers, Muse, Linkin Park) que mais clareiras viu.

 

Vídeos da Semana 19.14

Arcadefireweexist

A revolução, já se sabe, não vai ser transmitida pela televisão mas passa inevitavelmente pelo ecrã e o vídeo de We Exist é pura intervenção mais eficaz que uma temporada de Prós e Contras. Não há uma moral nesta história, só o questionar das questões de género com o actor Andrew Garfield no papel de shemale à Jared Leto em O Clube de Dallas dentro uma história passada em Coachella. O final glorioso é simétrico ao de uma banda que no meio do caos, ainda é capaz de impressionar e responder a cada gesto aos que questionam o seu lugar dentro de um espectro rock alternativo que se adaptou aos ditames da comunicação. E se houve alguém que cedo percebeu a transformação foram os canadianos. Têm aquilo que merecem.

Read More

Álbuns da Semana 3.14

Arcadefirerir

Se olharmos aos álbuns desta semana, são raros os nomes mas familiares mas talvez que nos tenhamos habituar à ideia crescente de que há cada vez mais cenas a acontecer e menos tempo para as viver a todas. Dos Arcade Fire para baixo – e salvo a reedição dos Uncle Tupelo – só as Dum Dum Girls e Angélie Kidjo provocam ressonância mediática e política no caso da cantora africana.

Ainda estamos na pré-temporada da pop mas já se podem tirar conclusões. Uma delas é a de que a fragmentação gera mais música que chega menos gente. Consequência da diluição de um “senso comum” em que Madonna podia coabitar com bandas de rock alternativo. Já só resta uma tribo a do metal mas os nichos estão cada vez mais espaçados. Mas o inventário desta semana não é sectário entre as memórias dos Uncle Tupelo, o tarraxo sofisticado de DJ Bison, o hip-hop mutilado de Cities Aviv, as explorações electrónicas de Cooly G e as bandas sonoras de Arcade Fire e Johánn Jóhannsson.

Read More