
Funeral foi oficialmente editado a 14 de Setembro de 2004 mas só no final do ano o mundo começou a ver a luz de um álbum que apesar do baptismo sombrio, é uma imensa celebração de vida. Nas habituais listas de final de ano, os Arcade Fire só ganharam assiduidade em 2005, pois foi nesse ano que o “whooaa” começou a fazer escola.
Durante os preliminares, a avó de Régine Chassagne morreu em junho de 2003, o avô de Win Butler em março de 2004 e a tia de Richard Reed Parry em abril do mesmo ano. Estava encontrado o título perfeito para uma estreia que não só lançaria a escada para uma das mais imitadas bandas dos anos seguintes como aquela que chegada de um circuito independente, ganhou dimensão global, graças também a verdadeiras maratonas épicas de palco e geniais campanhas de marketing. Nenhum dos episódios seguintes da discografia aporta a joie de vivre de Funeral, obra de grande fôlego humano directamente ligada ao coração.
Funeral caiu no epicentro do rock revivalista mas apesar de referências ancestrais como Talking Heads ou Bruce Springsteen, não se deixou ser refém do passado e olhou para a frente perscrutando questões pessoais tanto quanto mantras sonoros. É um disco simbólico de um tempo de mudança simbolizado pela princípio da ascenção dos nichos e pela diluição do mainstream. Dez anos depois, a prova dos nove é evidente. A ânsia por um novo álbum dos Arcade Fire é inversamente proporcional ao desinteresse por novo material dos U2.
Dois álbuns depois, os Arcade Fire ganhavam o Grammy para Melhor Álbum Rock com The Suburbs e Bon Iver o de Artista Revelação. A música dita independente era centralizada e entrava em saudável contradição. Seria o alternativo o novo centro? Não necessariamente. Desde os Pink Floyd aos Nirvana, Rage Against The Machine ou Strokes, sempre houve bandas infiltradas no sistema. A diferença é que os grãos de areia na engrenagem ganhavam uma espessura inaudita porque o motor da máquina se abrira a outros fabricantes. De outra forma, estariam condenados a ser uns Olivia Tremor Control ou, no limite, Flaming Lips do seu tempo.
Filhos da democratização da peneira, os canadianos contribuíram também para uma maior compreensão do que passaria a chamar-se erradamente de indie. Indie não é um estilo de música, é um posicionamento na lateralidade tão válido para o rock como para outro género. Mas Funeral em particular é um mediador entre a leva nova-iorquina de Strokes, Liars, Yeah Yeah Yeahs ou Interpol e o novo rock de arena personificado por Killers, Kings of Leon e mais tarde Black Keys. Os Arcade Fire foram aqueles que construíram uma ponte mais sólida entre o amor platónico e o compromisso de uma das maiores bandas do mundo.
Funeral foi o primeiro olhar irresistível e a conquista imediata graças a canções monstruosas como Neighborhood #1 (Tunnels), Rebellion (Lies) e Wake Up. Rock encorajado pela morte, animado por instrumentos clássicos como o violino e o acordeão, coeso por um grupo que passa para a multidão o ideal colectivo de partilha. Um gesto de auto-ajuda solidário para com as plateias de festivais e a geração de contemporâneos que encontrou nos Arcade Fire um possível substituto para os Radiohead entre o leque de referências centrais.
A vida para além de Funeral continuou com a solidez de Neon Bible e o risco de Reflektor – The Suburbs é apenas burguês e conformado – mas a imortalidade foi ganhar no madrugar de uma carreira que atinge a longevidade hoje invulgar de dez anos sem marcas de desgaste.