Os vinte álbuns nacionais do ano

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A pergunta é incontornável: valerá a pena continuar a elencar álbuns quando a tirania do single só deixa a ouvir a parte e não o todo? No ano de 2014 no país de Portugal, a resposta é clara. Sim! Nunca houve tanta boa música em quantidade e público disponível para ouvir e apropriar-se. A chave da questão está no compromisso. O É Português? Não Gosto da Stealing Orchestra foi abolido e a disponibilidade do público é simétrica à vontade de criar.

Três festivais exclusivos de música portuguesa – dois deles com casa cheia (Sol da Caparica e Bons Sons) -, salas lotadas nos grandes centros, a aposta crescente dos programadores, fervor nas redes sociais e sobretudo vontade de pertencer a uma geração que apesar da diversidade, faz da música portuguesa um regime de excepção num país em convalescença de uma grave crise político-financeira e uma das melhores da Europa.

Há bandas a nascer como cogumelos, músicos que todos os dias abrem a porta do quarto e soltam o disco externo para o mundo e um desejo de pertencer num quadro diferente daquele que é pintado sobre os anos 80. Facilidade de criação e abertura na comunicação são ferramentas essenciais para chegar a um mosaico heterogéneo e formado por múltiplos nichos, reflexivos da cultura fragmentada do Séc. XXI.

O título de álbum favorito do ano já fora entregue a Capicua. É chegada a hora de conhecer a lista completa dos vinte magníficos. Um ano para reter na memória.

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Álbuns da semana 30.14

Fachadacapa

A esta altura da música portuguesa, B Fachada começa a ser um clássico. Não haverá muitas bandas ou autores em nome individual com uma discografia tão extensa, acumulada num espaço tão curto de tempo e com um intervalo de ano e meio. B Fachada, o homónimo, põe fim a um merecido hiato e retoma de onde a obra-prima Criôlo nos deixou. A comparação é tentadora mas sobretudo importa valorizar a acumulação de camadas numa fachada esculpida com mãos de artesão.

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Fachada, o regresso (s)em nome próprio

Bfachadanova

Na pausa sabática determinada desde o final de 2012, Fachada deixou cair o B e entregou-se a paternidade, como bem ilustra a nova fotografia de promoção usada para ilustrar o regresso (s)em nome próprio.

Quase ninguém reparou no trecho mais importante do texto da Filho Único que anunciava o concerto na ZDB e algumas incursões veraneantes a Berlim (26 de Julho) e ao Fusing na Figueira da Foz (16 de Agosto). “Regressa aos concertos em Lisboa e Porto para estrear as novas canções que tem vindo a escrever tranquilamente na intimidade, num formato tecnológico inovador no seu percurso criativo, assim como para por ventura revisitar clássicos do extenso reportório original”. A negrito está a interrogação central que rodeia este retomar pacato da rota frenética explorada entre 2009 e 2012 ao ritmo frenético de duas edições por ano.

O formato não será inteiramente novo porque na digressão do genial Criolo, Fachada guardou a viola no saco e rodeou-se de sintetizadores, qual Brian Eno a expressar-se num Fachadez permeável ao dub (Quem Quer Fumar com o B Fachada?) e à pianola de Como Calha e Afro-Xula.

Após um episódio reflexivo sobre o conjunto de uma obra curta em anos mas riquíssima a construção de uma música portuguesa melhor e mais identificada com o seu tempo e o seu espaço, O Fim confirma-se, tal como prometido, um “até já” e não um “até um dia”.

O princípio da incerteza vai continuar a nortear Fachada que, a julgar pela corrida aos bilhetes para uma primeira noite já esgotada, vai continuar a levar os fiéis seguidores pela mão e a tornar as canções familiares, independentemente do meio ser uma braguesa ou um sintetizador modular. Até Neil Young gravou álbuns electrónicos. Só se pede a Fachada que não conspurque a sua obra valiosa como o canadiano nos anos 80. Como Criôlo tão bem demonstrou, José Afonso e Toro Y Moî têm algo em comum.

Após os bilhetes para quinta-feira terem esgotado, foi acrescentada a noite de sexta-feira. No dia 16, Fachada sobe até ao Plano B

B Fachada: o regresso a 25 de Abril

B Fachada - Os Sobreviventes

A boa notícia: B Fachada vai voltar. O trovador a quem o epíteto de génio não calha mal. Para já apenas aos palcos com um concerto numa data simbólica integrado nas noites Black Balloon. 25 de Abril no Lux com Minta e João Correia a refazerem o seminal Os Sobreviventes de Sérgio Godinho, indica um cartaz afixado à entrada da discoteca de Santa Apolónia. A má notícia: é o pior álbum a que já deitou a mão, uma reconstrução leve e de camisa desabotoada de canções com peso na história do país pré-25 de Abril.

Mas olhemos a boa nova. Fachada retirou-se no final de 2012 após um ano intenso em que editou a obra-prima Afro-Xula, o falhado Sobreviventes (partilhado, é certo) e o derradeiro O Fim em que abraçou de novo a viola braguesa. E após uma maratona de 13 álbuns em seis anos, um ano sabático. O silêncio termina a 25 de Abril com a reinterpretação ao vivo de um álbum com agenda política incontornável.

O cartaz com a agenda do Lux para Abril tem outras novidades. Por exemplo, a apresentação do novo Clarão dos Paus no dia 10, noite em que a pista recebe Maya Jane Coles. As noites Hard Ass regressam a 4 de Abril na mesma noite em que estarão na cabine os já conhecidos da casa Ben UFO , Pearson Sound e Pangea; na noite anterior, Gui Boratto regressa a Santa Apolónia.

A noite em que o Lux entrega a programação a uma curadoria acontece a 11 de Abril com Lauer, Gerd Johnson e o veterano Sven Vath. Uma semana depois, outro mestre: Robert Hood, fundador dos Underground Resistance

Ainda a 25 de Abril, Anja SchneiderRay Okpara ocupam-se do Clubbing. E finalmente no dia 30, há Bangcock Snobiety, Paul WoolfordMidland. 

Onde é que ficámos depois? Dez regressos que mudaram vidas

Morrissey

O regresso inesperado de David Bowie pôs as redes sociais a discutir o tempo. Where Are We Now? lembra Sozinho, de Caetano Veloso, em que o baiano termina com um Onde Está Você Agora?

O novo single do “camaleão” é uma capital encantadora de um país que não se conhece mas independentemente do veredicto de The Next Day, o álbum que irá chegar em Março, Bowie voltou em grande com a melhor canção desde que se desinteressou pelo amanhã e se concentrou apenas num hoje independente de tendências ou novos costumes. …Hours de 1999 recentrou interesses. 14 anos depois, há um disco novamente capaz de gerar ampla discussão. Mas outros casos de regressos que reconciliaram músicos, obra e, porque não dizê-lo, público.

 

Sérgio Godinho – Domingo no Mundo (1997)

Os tempos modernos de Sérgio Godinho começaram em Domingo no Mundo, o álbum em que se rodeou de alguns dos músicos que ainda estão nos Assessores. Não que para trás alguma vez tivesse deixado os parentes na alma mas após um Tinta Permanente em que os arranjos jazzísticos denotavam sinais de cansaço, havia que mudar. O loop industrial da canção-título denotou uma bomba construída por uma mescla de músicos de diferentes gerações: de Nuno Rafael a Flak passando por Kalu e Tito Paris. Ficaram os mais novos e o som do mestre rejuvenesceu-se.

 

Bob Dylan – Time Out of Mind (1997)

Para muitos heróis de 60 e 70, as décadas seguintes foram penosas. David Bowie, por exemplo, andou dez anos perdido, a gravar álbuns medíocres como Never Let Me Down e desventurado com os Tin Machine. Neil Young fez música com sintetizadores (!) e Bob Dylan divorciou-se da fé. Time Out Of Mind, de 1997, foi o disco da reconciliação : com as canções, a crítica, o público e os prémios, ao vencer um Grammy de Álbum do Ano. Gravado com Daniel Lanois, não revolucionou a sua obra, apenas a devolveu a um trilho por onde iriam passar os brilhantes Modern Times (2006) e Tempest (2012).

 

David Sylvian – Dead Bees On A Cake (1999)

Quando David Sylvian partiu para Dead Bees On A Cake, não gravava em nome próprio há doze anos desde o escapista Secrets of the Behive. Pelo meio, duas bandas pontuais e opostos: os Rain Tree Crow, um farol de uma pop ambiental que encontrava nos Blue Nile um aliado e um disco eléctrico-experimental com Robert Fripp, que apesar das muitas virtudes já não era o habitat natural de Sylvian. Dead Bees On a Cake devolveu-o a um presente desligado dos grandes palcos antes experimentados. Sylvian veio diferente mas ainda melhor e com este álbum plantou uma casta envelhecida, a melhor da sua colheita.

 

Jorge Palma – Jorge Palma (2001)

Jorge Palma começou a década de 90 com um álbum ao piano que para os que costumam citar o currículo clássico é o delírio. Pelo meio, deixou de estar  no Rio Grande, um supergrupo consequente e autor de grandes canções com sotaque alentejano, e deu concertos. Muitos. Gravar novamente, só em 2001 com um álbum homónimo ao qual muitos chamam de É Proibido Fumar devido à capa. Foi o disco necessário para tapar um buraco editorial mas a verdadeira obra-prima é Voo Nocturno, de 2007, em que se assume como um Neil Young português de corpo inteiro (voz incluída).

 

Johnny Cash – American IV The Man Comes Around (2002)

American IV The Man Comes Around é o quarto de cinco volumes em que Johnny Cash conta a história da canção americana através das canções dos outros. Quando saiu, já o produtor Rick Rubin lhe tinha emprestado um saco cheio de ar para tomar um novo fôlego que não o impediria, contudo, de falecer. Hurt dos Nine Inch Nails, como Personal Jesus dos Depeche Mode, tornaram-se símbolos de um Johnny Cash novo para quem o via de fora.

 

Bruce Springsteen – The Rising (2002)

Para Bruce Springsteen, os anos 70 foram de afirmação e os 80 de glorificação. Por questões de ciclo pessoal e de ressaca da massificação provocada por Born In The USA, a década de 90 foi penosa para o “Boss”. Talvez a excepção tenha sido Philadelphia, ainda assim uma canção isolada da E-Street Band e de um álbum, despida e própria de um autor em reclusão. A tragédia do 11 de Setembro fê-lo retirar a bandeira americana da garagem e cantar a América com a urgência de quem tem algo a dizer. De há dez anos para cá, Springsteen é a voz de um povo e só os artistas negros têm poderio para ombrear.

 

Morrissey – You Are The Quarry (2004)

O contexto também faz a música. Com a resistência histórica e admirável dos Smiths em aceitar milhões de libras para juntar Morrissey, Johnny Marr, Mike Joyce e Andy Rourke e um revivalismo galopante do pós-punk (ainda não havia M80 na altura), “Moz” só precisou de ser viçoso para readquirir um estatuto perdido em álbuns menos floridos como Maladjusted. Na verdade, há sete anos que não gravava e o silêncio revelou-se em encher de ar para a reconquista de um carisma que, na época, era apenas entendido por todos aqueles que ainda usavam popas no cabelo.

 

Depeche Mode – Playing The Angel (2005)

De todas as escolhas, talvez esta seja a mais discutível porque os Depeche Mode nunca gravaram um mau álbum – o mais discreto é até posterior a Playing The Angel –, nunca deixaram de ter estádios cheios desde que conquistaram os EUA e nunca deixaram a órbita pop de quem faz da música uma paixão diária. Mas após um Exciter de intensa relação com o techno minimal e a IDM, este foi o disco que pôs os Depeche Mode no lugar certo: entre o passado e o presente, sem ambições de inventar uma roda mas apenas de ter a própria a girar. Para isso, contaram com grandes canções como PreciousJohn, The Revelator. No posterior Sound of The Universe, complicaram de novo e perderam.

 

Nick Cave – Push The Sky Away (2013)

A um mês de se consumar o regresso de Nick Cave, há um single e um mapa conceptual do que pode soar o primeiro álbum do australiano que tem um escritório em Londres onde compõe das 9 às 5, tipo função pública: “As canções transmitem como na Internet acontecimentos significativos, modas pontuais e absurdos tingidos de misticismo se sentam lado a lado e questionam como podemos reconhecer e atribuir peso ao que é importante”. Podia ser o enunciado de Where Are We Now?. We Know Who U R diz o mesmo por meias palavras mas é uma grandessíssima canção meio-tempo de questões atravessadas como o tempo e as pessoas.

 

B Fachada – (?)

No ritmo alucinante ritmo editorial de B Fachada, apenas houve lugar a um anexo. A reconstrução falhada d’Os Sobreviventes de Sérgio Godinho. De resto, álbuns como Criôlo, Um Fim-De-Semana no Pónei DouradoHá Festa Na Moradia entram direitinhos para os livros da música portuguesa e estão entre os melhores dos últimos cinco anos – um dos três períodos mais produtivos dos músicos que compõe para cá de Vilar Formoso. O Fim é o início de um período sabático que se deseja curto e que, por agora, está previsto para todo o ano corrente.

Contexto #5: o ano de B Fachada

“É desta que eu me assumo. Fica tudo para vocês”. A frase está n’O Fim, uma das canções do álbum homónimo que conclui num ano altamente produtivo para B Fachada que, apesar de todos os anticorpos, se assumiu como o nome maior de uma geração de cantautores e o mais talentoso desde os cinco magníficos: José Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Jorge Palma e Fausto.

É certo que a reconstrução d’Os Sobreviventes, o álbum inicial de Sérgio Godinho, foi executada a seis mãos, com Francisca Cortesão (Minta) e João Correia, e por isso menos próxima de um Fachadês que com a braguesa eléctrica acrescentou um ponto a um conto que, por agora, termina com final feliz. Mas esse foi apenas um anexo numa discografia em crescendo com uma capacidade proactiva capaz de fazer corar o patronato que se queixa da baixa produtividade nas empresas.

De longe o melhor álbum português do ano, Criôlo é um clássico para os livros em que se cruza a linguagem única de Fachada, África e sintetizadores foleiros que em Brooklyn se chamariam chillwave. Num 2012 médio-alto de produção nacional em que houve António Zambujo, A Naifa, Black Bombaim, Capicua, Chullage, Moullinex, Norberto Lobo, Orelha Negra e Osso Vaidoso, entre outros, Fachada fechou o ano já depois do balanço com um epitáfio do contra em que o ponto de partida é a paternidade recente. Dessa condição, Fachada assina uma tese subliminar sobre a tradição familiar repleta de segundas leitoras e um sentido de humor irresistível

Uma Boa Nova, como o próprio anuncia na canção de abertura, que confirma as suspeitas: 2012 foi o ano de B Fachada e, mesmo ausente, no próximo capítulo do calendário vamos certamente ouvir falar muito dele. Nem que seja pela ausência. “Boa nova. Não caí na cova. Boa nova. Ninguém sabe o que eu passei. Boa nova. É só mais esta sova”. Venha ela.

Ouvir:

O Fim

Criôlo

Contexto #4: O tempo dos veteranos

Contexto #3: O ano em que Madonna caiu do trono

Contexto #2: O regresso dos anos 90

Contexto #1: O ano em que o rap saiu do armário

 

B Fachada no estádio do bom fim

Em Dezembro de 2010, B Fachada assumia-se “pra meninos” num álbum em que tó-zé não aceitava ser pau mandado quando o mandavam sentar-se à mesa. O mau feitio autobiográfico da personagem era interpretação de uma vida de perplexos sobre Questões de Moral respondidas com Conselhos de Avô.

Fachada usava a família para tocar em Deus e na pátria como uma pequena traineira num oceano de questões existenciais. Assumia-se o autor em contramão que não deixa indiferente quem o ouve, num meio-caminho incansável de produtividade que agora chega a um fim. Um bom fim que não é certamente definitivo mas apenas um intervalo como nos filmes.

Dois anos após esse momento particular, a narrativa pessoal persiste. Em 2012, B Fachada bate o recorde de edições com o genial Criôlo e uma reconstrução d‘Os Sobreviventes, de Sérgio Godinho, um anexo na sua discografia partilhado com João Correia e Francisca Cortesão (Minta). O ano termina com O Fim e a insistência na biografia pessoal sublimada através de novas canções.

No B.Leza – sala nominalmente correcta para este epitáfio parcial -, foram as novidades a preencher a primeira parte de um concerto que terminou ao fim de três encores para gáudio do próprio e da plateia. Fachada ganhou um prazer em palco que há uns anos não se lhe reconhecia.

Quando o artista regressar, já estará perto da casa dos 30. O B Fachada que era pra meninos é agora papá e é sobre essa alteração de status que falam canções como Boa Nova, em que a braguesa eléctrica suporta versos como “boa nova/não cai na cova“, numa letra impressionantemente terrível com a marca autoral que há muito firmou.

Fachada não é só o maior da sua geração e o (cantautor) mais importante desde José Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Jorge Palma e Fausto. A identidade demarcada encontra na métrica ímpar uma virtude apenas comparável num passado recente a Manel Cruz ou a rappers como Pacman, Sam The Kid e, provavelmente, Halloween.

“Ir para o Brasil só em dois mil e tal”, canta numa das sete estreias que tinham em cartaz. O Fim de B Fachada pode ter diferentes leituras: fim de ciclo musical (ou capítulo discográfico) com conclusão triunfal, fim do mundo (hoje) na noite seguinte ao derradeiro concerto (ontem) e fim de vida sem filhos e consequente recentrar de atenções. A confirmar.

Quem queria fumar com o B Fachada vai continuar a ter razões para ter mortalhas na carteira mas há uma canção que promete animar o próximo ano pelas parecenças com O Que Faz Falta, de José Afonso. Começa com um coro “ti-ti-ri-ti” à Venham Mais Cinco, segue até um refrão em que se ouve “o que faz falta à multidão” e vai certamente dar muito que falar. Mesmo “retirado”, o Fachadez vai continuar a animar a malta.

Vídeo de É Normal com ritmo apropriadamente funaná: