O regresso de bandas portuguesas ao activo, umas mais icónicas que outras, a maioria para dar concertos e algumas mais atrevidas pelo estúdio, dá corpo à tese de que por cá tudo acontece com atraso. O que não é de todo verdade – basta consultar o post anterior para ver uma entre milhares de provas – mas que num sector mais tradicional da indústria ainda se comprova
No fundo, é a indústria e o que resta dela a tentar salvar os apartamentos no Parque das Nações, a sonhar com um passado de jantares regados, planos de marketing ambiciosos, orçamentos faraónicos de gravação, viagens de barco para jornalistas e despesas pagas com cartão de crédito de empresa. Quase nada esta desse tempo abastado mas o que não terminou foi a saudade de algumas bandas. Vejamos então três casos de nostalgia sentida com resolução diferente:
SIM

Ornatos Violeta
Os Ornatos Violeta voltaram para retribuir o amor que a vaga crescente de fãs foi enviando das mais variadas formas. Dez anos após se terem despedido perante uma Aula Magna que nem esgotada estava, regressaram triunfalmente em Paredes de Coura e prolongaram a festa aos coliseus de Lisboa, Porto e São Miguel. Musicalmente, pareceu óbvio que já não têm a cabeça nos Ornatos mas a parte triste da história é que de todas as aventuras em nome individual, Nuno Prata é o único caso consistente e de Manel Cruz apenas o disco/livro Foge Foge Bandido é relevante. Ainda assim, um regresso feliz e coerente que deixou toda a gente satisfeita.

Heróis do Mar
Os Heróis do Mar tiveram tudo certo para regressar em 2007 após a estreia do documentário Brava Dança, de Jorge Pires e José Pinheiro. O plano passava por criar uma grande produção que seria estreada no Optimus Alive e concluída com um grande espectáculo no Pavilhão Atlântico. Tudo estava alinhavado mas o regresso implicava seis meses de preparação prévia que o guitarrista Paulo Pedro Gonçalves, então na Escócia, não podia perder devido a dificuldades económicas. Mesmo com um patrocinador, não foi possível e se não foi na altura também não será agora.

Da Weasel
O caso dos Da Weasel é diferente dos dois anteriores porque poucos anos passaram sobre o fim – três desde que sentenciaram um ano sabático e dois desde que a separação foi tornada definitiva . As razões pelas quais a “doninha” deixou de rebentar nunca foram explicadas. Embora não totalmente esclarecedora, a declaração mais clara foi de Virgul ao Correio da Manhã quando assumiu que “uma pessoa achou que já não fazia sentido” continuar a banda. Mas sabe-se que os irmãos Pacman e João Nobre estavam desavindos e que as relações foram reatadas no novo capítulo de Algodão. Quanto a um hipotético regresso, “ninguém sabe, nem nós próprios”, definiu o primeiro há pouco mais de um mês ao mesmo jornal. A verdade é que o Algodão é a entidade mais activa no pós-Da Weasel já que os Nu Soul Family não existem no Inverno e, ao que tudo indica, os Teratron não voltarão a gravar o que, após o tiro no pé que foi o segundo álbum, é a melhor decisão que podiam tomar. Os Da Weasel deixaram um vazio – em parte preenchido por Buraka Som Sistema e Expensive Soul do ponto de vista de uma pop rítmica transversal – mas a acontecer um regresso terá que ser no espaço de um ou dois anos sob pena de os putos não os reconhecerem para além do YouTube e de não aceitarem uma banda hip hop com músicos de 40 anos. O maior desafio é encontrar um álibi credível.
OK
Estes são os três casos de maior felicidade popular mas há outros apesar de tudo justificáveis e com raízes nos anos 80. Não é por acaso.

Rádio Macau
Os Rádio Macau nunca acabaram oficialmente mas estiveram parados entre 1993 e 1999 após a edição do subestimado e experimental A Marca Amarela. Regressaram e bem para gravar três álbuns: Onde o Tempo Faz a Curva (2000) bebia na electrónica downtempo da época o sumo pop que sempre serviram; Acordar (2003) era o frio da manhã traduzido em canções outonais de grande beleza; 8 recuperava a energia primordial e alumiava a chama de uma banda que sempre fez dos concertos um caso sério. Tanto que Xana e Flak acabaram por se desentender mas não foi por isso que os Rádio Macau entraram num segundo hiato.

Sétima Legião
Quando gravaram o fundamental Sexto Sentido, em 1999, os Sétima Legião já eram um grupo de amigos, mais do que uma banda. De então para cá, mantiveram o hábito saudável de se encontrarem uma vez por ano no Frágil para um concerto por aqueles que não esqueceram. Este ano, aproveitaram o 30º aniversário sobre a sua fundação para subir a palcos maiores como os coliseus e a Casa da Música. Não os vi mas a fama de serem uma banda demasiado imperfeita não se perdeu. Mesmo assim, mal não veio ao mundo.

Mler Ife Dada
Os Mler Ife Dada foram uma das bandas lisboetas mais importantes dos anos 80. Como os Pop Dell’Arte sobretudo e Mão Morta também, navegaram por mares nunca dantes explorados em Portugal e contribuiram para um progresso cultural que não apenas musical. Em 2003, quando se anunciava o regresso dos anos 80, gravaram novas versões de Zuvi Zeva Novi e L’Amour Va Bien Merci, que apesar de piores que as originais deixaram a memória intacta.

Zen
Embora nem sempre lembrados pela massa crítica musical, os Zen foram juntamente com Blasted Mechanism, Coldfinger e Hipnótica uma das bandas portuguesas mais importantes de final dos anos 90. O vazio posterior de grupos rock sustentou na memória um nome que deixou lastro sobretudo em palco. Em 2011, regressaram com o incendiário Rui Silva nas vozes, uma secção rítmica do melhor que há neste país e o guitarrista Marco Nunes em vez de Jorge Coelho. Diz quem viu que os concertos foram arrasadores. Ficaram de gravar um novo álbum mas, como diz o anúncio da Renault, “bom, se calhar…”.

Belle Chase Hotel
O manager dos Belle Chase Hotel conseguiu reunir uma banda que deixou obra inacabada. Dois álbuns ao virar do milénio foram insuficientes para se tirar a pinta a uma banda saudavelmente desgovernada que recuperava músicas ausentes no léxico dos músicos portugueses como o cabaret e a chânson française. Fossanova, de 1998, era muito bom e, incompreensivelmente perdia sempre nas comparações com os The Gift ,que tinham surgido na mesma altura. La toilette des étoiles era mais confuso mas o regresso onze anos depois e apenas para concertos teve um propósito. E de caminho, o melhor álbum dos Belle Chase Hotel foi Exílio, do Quinteto Tati.
PORQUÊ?
O pretexto desta interpretação das reuniões de bandas portuguesas partiu da Resistência que esta noite volta aos palcos no Campo Pequeno e depois do Natal vai ao Pavilhão Multiusos. Não faço ideia de como corre a venda de bilhetes mas artísticamente não encontro razões que justifiquem este retorno. Tal como nos restantes casos. A maioria, por sinal.

Resistência
Numa entrevista à SIC Notícias, o baixista Fernando Júdice traçava um paralelo entre o contexto político de há vinte anos atrás – quando a Resistência surgiu – e o actual. Errado. A década de 90 foi aquela em que mais dinheiro circulou em toda a história da humanidade. Se foi bem repartido? No hemisfério Norte nunca se viveu tão bem e os Resistência foram dos maiores contribuintes para o fortalecimento da indústria do disco e do espectáculo em Portugal. Já então eram uma reunião de personalidades, um supergrupo que se sustentava com versões acústicas do repertório dos intervenientes principais – Xutos & Pontapés, Delfins, etc. – e bem ou mal tiveram o seu tempo. No ano passado, a obra foi reeditada sem contextualização à altura e o regresso aos palcos parece desenquadrado.

Peste & Sida
Os Peste & Sida foram A banda punk portuguesa, apesar do primeiro álbum dos Xutos e dos Censurados, os Ramones portugueses. Os Peste & Sida vincavam a facção Clash com heterogeneidade, riqueza lírica e instrumental. A foto mostra a formação vintage, com Luís Varatojo, João San Payo, Orlando Cohen e Fernando Raposo. Destes, só o segundo voltou auxiliado pelo primeiro vocalista João Pedro Almendra. Os três álbuns Tóxico, Cai no Real e Não Há Crise são fraquíssimos, claro, mas o mais chocante é ver uma banda política subjugada a uma mensagem básica, mal escrita, e à necessidade de vender concertos. Lamentável.

Trovante
Nunca gostei dos Trovante apesar de ter sido deles o primeiro concerto que vi na vida – uma primeira parte do mestre Sérgio Godinho na Incrível Almadense em 1986. Gosto do Baile no Bosque e pouco mais; do pós-Trovante só a Ala dos Namorados (também eles a gravar para um regresso mas sem João Gil) foi digna até o beijo se soltar e o gato miar mas o primeiro regresso dos Trovante, em 1999 no Pavilhão Atlântico, foi, pelo menos um gesto simbólico louvável para com o povo timorense. Tudo o resto foi tapar buracos de contas bancárias empobrecidas pelo consumo massivo de charutos cubanos quando o fundo de catálogo já não vendia. Abona em seu favor o facto de nunca terem voltado a gravar.

Ban
Talvez o mais ridículo de todos os regressos. Ainda não refeito das dívidas do Boavista, João Loureiro voltou à primeira vida de cantor (?) com um álbum que queria vingar lá fora. Nem os LX-90 tinham ousado tanto quando descobriram o madchester. Se na primeira existência, os Ban eram uma banda pop muito razoável e de acordo com a época, este retorno foi só uma sitcom que o próprio escreveu e interpretou. Deu para rir e encontrar tesourinhos deprimentes no baú. De um filme sempre pop passámos a um filme sempre lol. Já que é para ser modernaço.

Taxi
O primeiro álbum dos Taxi é um dos mais inventivos de toda a pop portuguesa; a tradução ideal da new wave dos Police para um imaginário de um Porto gingão e noctívago. O segundo, vulgo “a lata”, já não é tão bom mas não se podia pedir aos Taxi que fossem os P.I.L. portugueses e introduzissem o pós-punk à música de dança. Daí e até meados dos anos 80, ousaram o inglês com a internacionalização em mente mas não mais voltaram a ser mascados mas mantiveram sempre a tradição saudável de dar um concerto anual na Queima das Fitas do Porto. Para quê mais? Quando decidiram voltar a gravar, ninguém ligou e agora há uma aberração chamada Os Porto, com João Grande e Rui Taborda, e para o qual Vítor Rua se ofereceu como guitarrista. De fugir.
O que aí vem

Jafumega
Os Jafumega não foram tão valorizados quanto os Taxi mas o álbum que tem Latin’América e Homem da Rádio não sendo tão declaradamente pop quanto o dos conterrâneos, talvez até seja mais rico. Os Jafumega eram tão virtuosos quanto conaisseurs e ouviam Talking Heads, Chic, Funkadelic, Kool & The Gang e Police. Não duraram muito mas o que ficou foi bom e merecia outro tipo de apreciação. Agora, estão aparentemente de regresso. “Se houvesse facebook na altura, seria a canção que teria mais likes com certeza. E agora, continuará a ser?”, perguntam num link que remete para o single Ribeira. Não restam grandes dúvidas que irão regressar mas para quê?

Essa Entente
Os Essa Entente são filhos da primeira geração do Rock Rendez-Vous e chegaram a participar na história colectânea Divergências, coligida por João Peste para a sua Ama Romanta, que então anunciava ventos de mudança na canção lisboeta. No final dos anos 80, já os Essa Entente andavam por outros caminhos, entre a urbanidade e o campo como uns Housemartins em Inglaterra. Do álbum de estreia produzido por Manuel Faria (Trovante) saiu a única entrada carta dirigida à memória popular: o single Dança Nua. Despediram-se após o concerto de tributo a José Afonso em 1994 no Estádio José de Alvalade mas parece que estão a trabalhar num regresso. Fui à procura do disco no Spotify e está lá; estes tipos podiam ter sido uns Virgem Suta se tivessem menos vinte anos. Será que pensaram nisso quando tomaram a decisão de voltar?

Toranja
Nah, só especulação. Resposta do Tiago Bettencourt ao Disco Digital: “não creio. Só se fosse uma coisa tipo Ornatos para saciar a sede sebastianista que este país tem quando as coisas acabam. Uma amiga minha dizia-me que as bandas regressadas dos anos 80 estão a ter muito mais êxito agora do que na altura. Sou um bocado contra essas coisas mas qualquer dia fazemos três coliseus como os Ornatos fizeram (risos). Acho muito bem, era uma coisa que devia ter acontecido na altura mas este país só gosta das coisas depois de elas desapareceram ou quando vão lá fora dar um concerto e depois voltam. Aí já são fantásticas. Ou então, quando desaparecem. Por isso, não ponho de parte esse regresso mas só para dar um ou dois concerto. Agora CDs, não faz sentido”.