NOS Alive, dia 3: Maioria absoluta na terceira volta
Disclosure
Sem surpresas, o terceiro dia de NOS Alive foi, como em 2014, o melhor e mais completo. O regresso à normalidade de anos anteriores, sprints de palco para palco, agendida preenchido desde o chá ao vodka e ruptura com o sha-la-la reinante.
Quem vem e atravessa o rio, esquece-se de uma Europa em erosão, dos problemas raciais nos EUA, do conflito israelo-árabe e de um país à espera de dupla jornada eleitoral, dividido entre a esperança na recuperação e e o desalento dos números. A música, como qualquer gesto artístico, é a arte do sonho e os festivais um meio de expressão massificado dessa partilha entre criadores e públicos, mas há muito que o caleidoscópio se move além dos palcos.
Festivais como o NOS Alive são, para quem circula, um paraíso à parte da vida real onde convergem beleza, estilo, moda, poder económico, informação, redes sociais em tempo real, redes de contactos, influência, tecnologia de ponta, novas tendências gastronómicas, tradições culturais, turismo local e internacional. O primeiro mundo em todo o seu esplendor debaixo de um sol inspirado e de uma luz inigualável.
O cenário é de tal forma idílico que dois rufias como os Sleaford Mods – híbrido mal disposto e alucinado de um Bez estático e de olhos esbugalhados sobre o computador enquanto se diverte num planeta muito pessoal e de um Mark E. Smith de accent cockney carregado, qual líder de claque do Nottingham Forest de costas para a equipa onde jogou um dia Roy Keane – são uma pedra na engrenagem.
O quadro é surrealista. Andrew Robert Lindsay Fearn tem como única função carregar no play e ainda se engana. Passa o concerto de mãos nos bolsos e protesta no final contra a falta de erva. Quem critica David Guetta e a horda de DJs cozinheiros de sets prontos-a-servir fica desarmado. Não pode haver nada mais provocatório do que isto. É o vocalista Andrew Williamson quem faz o concerto no seu estilo discursivo e agit-prop. Um working class hero combativo, credível no discurso e teatral no acto, apesar das muitas parecenças com o patriarca dos The Fall.
Os instrumentais são rudimentares mas a performance é urgente. No seu minimalismo sonoro, o desafio à norma é de tal forma duro e convicto que os Sleaford Mods saem coroados como a grande revelação.
Num filme solar onde a vida é bela, um ponto negro no rosto era tudo o que estava a faltar e, após o duplo revivalismo dos Counting Crows – Mr. Jones e a permanente capilar inamomível do vocalista Adam Duritz desde os anos 90 – o estado de desgraça continuou com os soberbos Dead Combo a terminar com Zorba, do compositor Mikis Theodorakis, enquanto a bandeira da Grécia pairava nos ecrãs.
Tó Trips e Pedro Gonçalves já foram apadrinhados por um cozinheiro, deram música a Hollywood e venceram um Globo de Ouro mas continuam a descer ao mais alto nível e a apelar à consciência colectiva através de uma música que, em palco, ganha músculo rock graças à intervenção de dois bateristas-percussionistas. Soberbos, como sempre.
No palco NOS, um Sam Smith recuperado dos problemas nas cordas vocais dividiu atenções com os nocturnos Chet Faker e Disclosure. O cantor é-o de facto. Um intérprete de grande porte – apesar da dieta assumida e demonstrada – capaz de esticar a voz a clássicos como Tears Dry On Their Own popularizado por Amy Winehouse, Finally de Ce Ce Peniston, Ain’t No Mountain High Enough e Le Freak dos Chic.
Single após single, Sam Smith é, apesar da rigidez do formato, uma figura pop credível capaz de demolir muros emocionais com as canções mais mediatizadas. De Money On My Mind a Stay With Me, a casa veio abaixo e teve de esperar por Chet Faker para se levantar até à cintura.
O australiano cresceu muito depressa para um solista da geração de produtores de quarto, inspirado pelas texturas e camadas de James Blake, pela escrita de canções através do hardware e da afinidade soul com a memória. O passo é lento, a banda mínima e o foco incide em exclusivo sobre a pilosidade densa de Nicholas James Murphy.
Ainda não é um concerto de corpo inteiro. No final, as opiniões dividiam entre a expectativa cumprida e a decepção. Algures no meio, está o balanço. Faker compensa a letargia aparente com um perfume sedutor, palpável nas formas cativadas da cultura de beats de hip-hop ou no saxofone encantador de serpentes de Talk Is Cheap. Talvez esteja na hora de parar e não deixar o balão encher demasiado.
O catálogo de canções precisa de reforços para juntar a um conhecimento popular quase inexplicável. Sem rádio, Chet Faker saltou, em dois anos, de um Lux esgotado com uma versão para o papel de cabeça de cartaz de um dos grandes festivais europeus. Impressionante.
De nenúfar em nenúfar, Azealia Banks chamou a si uma enchente no palco Heineken recorrendo ao formato clássico do hip hop MC + DJ mas, como tem sido regra numa carreira errática, ficou-se pelo quase. A rapper do Harlem tem apenas 24 anos mas o historial é tão vasto que quando nos lembrados dela, a imagem é a de alguém veterano, um pouco como o futebolista Mario Balotelli.
O potencial é de raiz mas tanto resvala para o melhor como para o pior e a língua viperina quase sempre aponta para a própria baliza. No NOS Alive, fez a festa mas só a espaços. Banks é talvez a MC mais brava da cultura popular desde Missy Elliott mas a performance parece colada com cuspo, empolgante como na terminal 212 ou aborrecida quando desperdiça 1991. O tempo está a esgotar-se para ser confirmada rainha do hip-hop contemporâneo.
Quem há muito percebeu o que queria foram os Disclosure e, pela primeira vez após a estreia no Clubbing do NOS Alive em 2013, sentimo-los não a pisar a terra mas a olhar para espaço e a aventurar-se por galáxias visuais que deixam os irmãos Lawrence em suspenso. Como cresceu este planeta!
Já não são apenas as canções pop de tronco house. O espectáculo cresceu a anos-luz e acompanha a ascenção fulgurante de um duo que, à porta de um segundo álbum, não teve medo de testar uma mão cheia de novas canções perante uma plateia sedenta do desfile imparável de singles que é Settle.
Pela amostra, a equipa ganhadora não vai sofrer alterações. Dos cinco inéditos, quatro têm potencial para romper. Super Ego, pela contemporânea de FKA Twigs, Nao, Willing And Able interpretada por Kwabs – as duas cantadas em vídeo – e a lindíssima Jaded do irmão Howard revelam sentimentos r&b e soul apurados. O novo single Holding On, mais formulado sobre o 4×4, cresce em palco. E o house jack de Bang That – lado B imaginário de When a Fire Starts To Burn – é guilhotina regada sobre a multidão.
Dessa e de outras como F For You, Latch, Help Me Lose My Mind e White Noise já se adivinhava o resultado. Dividiram-se entre os pulmões, os quadris e os vídeos captados em telemóvel. Agora já não há dúvidas: os Disclosure vieram para ficar.
Para não perder a pedalada, os lordes do funk Chromeo deram show de aeróbica miami bass a quem quis gastar os últimos cartuchos de energia a pular, dançar e queimar energias que o verão se aproxima e o Instagram não perdoa gorduras. A fórmula de Dave 1 e P-Thug é extremamente eficaz. Música de dança entre o orgânico e o sintetizado, boogie pop, quais Jamiroquai cobertos por palmeiras californianas, cool rasca, solos oleosos, camisas floridas e cabedal caro e a exploração de ideias em segunda-mão dos anos 80 esquecidas durante a nostalgia pós-punk.
Os Chic, Ashford & Simpson, Roger Zapp e Dâm-Funk vão ao vocoder de pressão e saem os Chromeo, dupla com noção americana sobre o papel a desempenhar num festival para milhares de pessoas desejosas que seja quatro da manhã para sempre nas suas vidas.
Fotos de Leonor Fonseca







