Conta-me como foi há dez anos (antes do YouTube)

Franzferdinand2004

Poucas reedições sopram dez velas de vida porque a música é um alimento para alma para ser sorvido com calma e uma dezena de anos é uma digestão demasiado lenta que pode provocar congestão. Em 2004, a televisão estava cheia de anúncios da Alka Seltzer e ainda era o canal onde os vídeos eram consumidos. Dito de outra forma, ainda havia telediscos. O YouTube só seria fundado em Fevereiro de 2005 e a Internet ainda se encontrava na pré-história. O MySpace estava para nascer e o Hi5 era a única rede social. Não se socializava, só se engatava. O mais parecido com o Instagram era o Fotoloblog e os internautas confessionais expressavam-se no Live Journal. Alguém se lembra?

O mundo mudou muito nos últimos dez anos e é irónico perceber que de 1994 para 2004 passaram dez anos mas de então até hoje, parece um século. Excluindo o iPod – o primeiro motor de mudança na forma como a música é consumida – todas as grandes transformações vieram depois. Mas alguns dos nomes mais transformadores dos últimos anos estavam então a começar a mudar o mundo. Os Animal Collective começavam a ser notados, os LCD Soundsystem emergiam, Kanye West editava o primeiro álbum e M.I.A. estava para acontecer.

Em 2004, a cultura pop ainda celebrava o novo passado com bandas como Franz Ferdinand mas já ensaiava um futuro em shuffle que tanto abrigava os Arcade Fire como os The Streets. Para cá de Olivença, os Da Weasel eram o fenómeno do ano, os Dead Combo abriam as comportas lisboetas ao mundo e os Humanos davam a António Variações e ao povo o melhor presente que a pop podia oferecer.

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Devendra Banhart: ainda freak mas já não folk

Devendrabanhartlive

Por maldade, a descrição visual da freak folk que há perto de uma dezena de anos irrompeu pela cena indie Pitchforkiana dentro era sempre pouco higiénica. Ou era o banho que não estava tomado ou o sovaco excessivamente habitado (nas mulheres) ou o pé descalço, num preconceito que se confundia com a imagem que se criou do FMM Sines. Independentemente das personagens com essa tipologia (por necessidade ou escolha), é redutor e desviava o olhar do essencial.

Esse talvez tenha sido o Devendra Banhart até Smokey Rolls Down Thunder Canyon, álbum de 2007. Aquele que esteve ontem no Centro Cultural de Belém é certamente mais perfumado e de freak só mantém a voz inconstante entre o bezerrar à Julian Casablancas e variações poliglotas, e os saltitos adolescentes de quem se entusiasma até na última noite da digressão europeia de Mala. 

O corpo esguio que se deixa enlevar pela música diz-nos que está a acontecer naquele preciso momento. A banda que o acompanha mantém a realidade no nível mais alto.

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