NOS Alive, dia 1: O planeta dos macacos

Arcticmonkeyslive

Do planeta dos macacos vê-se um estádio mas a equipa da casa ainda não tem jogo para a grandezas das bancadas lotadas. Os Arctic Monkeys deram o salto de grandes alternativos para alternativa aos maiores e são hoje a banda rock capaz de manter vivo a velha fantasia da guitarra na mão. “Espelho meu, espelho meu, haverá alguém mais rocker que eu?”. A resposta vem sob a forma de hair guitar com brilhantina e pente.

Está lá tudo. As canções, o domínio do palco, o carisma de Alex Turner, a maturidade adquirida ao longo de centenas de noites, os êxitos universais e o preenchimento do palco. Sente-se que falta alguma surpresa mas não é por aí que o gato deixa de ir à filhós. O som do palco grande não contribui mas aos Arctic Monkeys falta uma massa de som mais poderosa que os eleve a um patamar quase inalcançável por bandas anteriores a 2001: o do rock de estádio.

O lugar ao sol onde Muse e Coldplay douram a pele é a praia a conquistar mas se o passo dado em AM foi gigante na conquista de novos territórios sonoros, ainda há degraus de separação entre o querer e o poder. Claro está que os Arctic Monkeys são infinitamente mais estimulantes que os dois nomeados e têm no refrescamento de alguns modelos rock monolíticos uma qualidade nem sempre reconhecida. Mas falta o extra que transforme um bom concerto numa noite memorável. Qualquer coisa de transcendente que páre os ponteiros obrigatória a esta escala de grandeza.

A primeira impressão do festival explica porque razão o dia de abertura esgotou. Ainda antes de as colunas soltarem as primeiras ondas sonoras vindas do palco, o recinto já se parecia com um misto de visita de estudo, viagem de finalistas e colónia de férias transitória do nono para o décimo ano. O rótulo que de há anos para cá é colado ao Sudoeste esteve na primeira noite de Optimus Alive. Os miúdos ex-fãs de Justin Bieber e One Direction rasgaram os posters da Bravo e vestem agora T-Shirts de AM. 

Naturalmente, os Arctic Monkeys são hoje a banda rock com maior impacto (a única?) nas gerações nascentes e se o álbum do ano passado revelara uma intenção clara de refrescar modelos canónicos no rock como a introdução de ritmos r&b sexuais, o concerto desta noite confirmou que também o público mudou de rosto. De alternativos de primeira importância a aspirantes a banda de estádio, os britânicos estão cada vez mais americanos (os europeus nunca lhes perdoarão a mudança para Los Angeles) e Alex Turner um duplo de Elvis Presley.

Começam por cima com Do I Wanna Know entre o bréu das sombras, avançam para Snap Out of It e por AM se mantêm com Arabella, um riff à Black Sabbath casado com War Pigs, versão dos pioneiros do heavy metal. Não falta nada. Alex Turner e o baterista Matt Helders são os artistas. A Jamie Cook (guitarra) e  Nick O’Malley (baixo) o papel de músico serve. A secção rítmica tem peso. As melodias inesquecíveis. A cerimónia de canções reconhecidas pela memória a prova provada do percurso de trás para a frente de uma banda que tem hoje fãs com borbulhas na cara, tal e qual como quando explodiram na Internet com o vídeo de I Bet You Look Good On The Dancefloor. Esta e Cornerstone continuam a fazer as delícias dos ouvintes mais antigos mas a massa que esgotou o Optimus Alive na noite de 10 de Julho é geração YouTube que se relaciona com a música através de canções avulsas e álbuns.

Os Arctic Monkeys são a maior banda da era em que o rock arruma os pedais de distorção na garagem e se demite do papel contra-cultural. Estão bem lançados mas ainda há caminho para palmilhar.

Se o bolo da popularidade deve ser dividido com os Foo Fighters ligeiros chamados Imagine Dragons, o ceptro de concerto da noite tem que ser repartido com os Temples. Começaram hesitantes e com problemas técnicos no microfone do vocalista James Edward Bagshaw, um clone de Marc Bolan.  Pareceram assustados com a multidão com que se depararam mas recompuseram-se e acabaram em grande. As canções de Sun Structures ganham corpo em palco sem que as melodias à Kinks se percam no volume alto. Definitivamente, não são uma banda para preencher a voracidade instantânea. Vão voltar maiores.

Pelo contrário, o prazo de validade dos Interpol há muito que expirou. Regressaram após três anos de hiato com um novo álbum para ante-estrear e, surpresa das surpresas, é uma réplica de uma discografia sempre em decréscimo de interesse. A música de enterro dos nova-iorquinos vem completamente deslocada do espírito hipster-pop-teen do palco NOS e é a auto proclamação de uma marcha fúnebre sem lágrimas.. Tal como os Kaiser Chiefs, Bloc Party (estes vão e vêm sazonalmente) e Strokes, estão a perder uma boa oportunidade de se afastarem do mapa sem cair em decadência. Um desperdício o grave de Paul Banks.

 

 

O que é que aconteceu ao meu rock’n’roll?

Yeahyeahyeahsnova

O mote foi lançado por Karen O em entrevista à Pitchfork a 14 de Janeiro, ontem recuperada pelo site: “fazer dez anos marcou o fim de uma etapa e isso tem consequências psicológicas”. Há quem defenda que se trata de uma barreira psicológica mas talvez a pop idade tecnológica seja mais curta. Ainda é cedo para balanços mas em 2013, uma década de vida é entrar numa meia-idade em que se é novo demais para o Hall of Fame e velho demais para se ser revelação.

A vocalista da banda que ontem anunciou os detalhes do novo Mosquito – álbum cujo teaser promete mas que se arrisca a ficar famoso pela capa série-Z – aludia ao décimo aniversário sobre o nascimento dos YYY.

Filhos da renovação rockeira de virar de milénio permitida pelo revivalismo pós-punk de vinte anos antes e pela reacção ao poderio electrónico e à massificação do hip-hop, os Yeah Yeah Yeahs vieram da mesma casta nova-iorquina que viu os Strokes assinar em Is This It? um dos mais importantes documentos da época e um guia para toda a década.

Nos livros, a banda de Casablancas e os White Stripes foram responsáveis por uma nova vaga de bandas rockeiras que, pelo caminho, apanhou os mais antigos Queens of The Stone Age ou The Hives, parentes da mesma família sanguínea apesar do peso sonoro acrescido. A partir daí, foi vê-los chegar: Black Rebel Motorcycle Club, Interpol, Yeah Yeah Yeahs, The Libertines, Bloc Party, The Killers ou Franz Ferdinand. Talvez os Arctic Monkeys tenham sido o derradeiro suspiro deste “movimento”. E quem se lembra de uns tais de Black Keys que andavam a tocar em bares e agora têm arenas e estádios cheios à sua frente?

Era uma época de conquista para as novas bandas de rock que num dia estavam na garagem e no outro na MTV. Hoje, os festivais continuam a repescar alguns destes nomes para liderar cartazes, por isso é tempo de deitar um olho ao retrovisor e o conta-quilómetros para perceber onde estão estas bandas. Doze nomes para doze anos de separação.

Thestrokes

1. The Strokes

Talvez Is This It tenha sido o álbum mais influente da década pelo legado inspirador (em Portugal, os Pontos Negros são um bom exemplo). O NME, por exemplo, deu-lhe esse voto quando se virou a página sobre os anos 00. Muito inspirados pelos posteriormente regressados Television, também eles nova-iorquinos devotos, os Strokes viveram o mito da cidade a partir do rock. Envelheceram mal com um segundo álbum pobre, um terceiro melhor e um quarto que nem devia ter existido. Pelo meio, drogas, fricções e uma banda deslaçada quase sempre tímida em palco. É o mito que sustenta a imagem apesar de tudo relativamente intacta para quem tão poucas páginas escreveu após a história. Envergonhados com Angles, já trabalhavam num sucessor ainda antes deste sair. Será desta?

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2. White Stripes

Os Strokes podem ter o álbum fotográfico de uma época mas o hino é dos White Stripes e não está naquele que é o seu melhor álbum – White Blood Cells, de 2001, um aliado portentoso de Is This It enquanto testemunho da reviravolta das bandas de guitarras. Quando Seven Nation Army começou a levantar estádios, já Jack e Meg White tinham construído um enredo familiar à sua volta sem que o “líder” alguma vez descurasse a dedicação às canções. Acabaram em 2011 em pleno hiato e depois de um disco fraquinho – Icky Thump – com riffs à Black Sabbath mas em mau. Souberam preservar-se, contudo, e o percurso de Jack White está aí para o provar, quer a solo, quer no primeiro Raconteurs. Quanto a Meg White, alegadamente pouco dedicada à banda, não mais se lhe ouviram as baquetas.

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3. Queens of the Stone Age

O que faz os Queens of The Stone Age chegar a 2013 com toda a gente à espera de um novo álbum não é certamente Era Vulgaris, um aluno demasiado bem comportamento numa turma discográfica de tumultos rock e pedradas. Os reis do deserto tiveram no período entre 2000 e 2005 uma etapa fulgurante com Songs For The Deaf (2002) a assumir-se como a pedra preciosa de uma discografia há seis anos em silêncio e que este ano deixará de hibernar. Talvez o culto que despertem se deva à proximidade com os anos 90; antes dos Queens havia os Kyuss e a combinação entre melodia e peso vem de trás; não é de 2001. Com ou sem nostalgia, estão vivos e saúdam-se.

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4. Black Rebel Motorcycle Club

A história ainda não se encarregou de fazer justiça aos Black Rebel Motorcycle Club. Uma reedição do álbum de estreia faria sentido para se recordar o quão apaixonantes eram canções como Red Eyes and TearsLove BurnsSpread Your LoveAwake. E, claro, Whatever Happened To My Rock’n’Roll continua a ser um hino, mais actual agora por todas as questões colocadas ao rock. Pode argumentar-se que não se trata de uma discussão nova e é verdade mas nunca o acesso à tecnologia foi tão fácil. Essa mudança de paradigma está a alterar os padrões de composição mas nada disso importuna uns BRMC que estão de volta com Spectre At The Feast (ed. 18 de Março), gravado em parte no Rancho de la Luna dos Queens of The Stone Age, e inspirado por Pink Floyd e Spiritualized. Tony Visconti há-de ficar orgulhoso.

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5. The Hives

Em 2001, os The Hives chegavam com um Veni, Vidi, Vicious mas a vitória tinha antecedentes, não só porque o álbum já tinha um ano mas também porque os suecos eram uma versão polida dos conterrâneos (The) International Noise Conspiracy e arty dos parentes locais No Fun At All. Na relação com o garage rock, os White Stripes estavam próximos apesar da distância geográfica e o contexto aliado a refrões de arena como Hate To Say I Told You So permitiram prolongar a contribuição da Suécia para a pop. A partir daí, continuaram a fazer o mesmo álbum mas com canções diferentes; quando quiseram mudar em The Black and White Album (em que entra Pharrell Williams, por exemplo) foram mal interpretados.

Interpol2002

6. Interpol

Da vaga de bandas aparecidas entre 2001 e 2003, os Interpol são uma das que pior envelheceu e a primeira a assumir a nostalgia enquanto tábua de salvação com a reedição de Turn On The Bright Lights, álbum que apesar de canções como PDA, Obstacle 2 ou a lindíssima Untitled que abre o alinhamento, cheira mais a mofo que a fresco. O problema destes nova-iorquinos com costelas inglesas sempre foi a identidade: ao longo dos anos, nunca se libertaram do complexo Joy Division e da colagem aos Chameleons. O mais recente álbum, homónimo, foi votado à indiferença e Paul Banks já tem dois rebentos em nome próprio sem que a inatacável competência vocal sirva para mais do que lembrar a entoação de Ian Curtis.

Blackkeys2002

7. Black Keys

Quem eram os Black Keys em 2002? Zés-ninguém. Quem são os Black Keys em 2013? A banda que esgota arenas, enche estádios, vende milhões e está nomeada para seis Grammys na companhia de Frank Ocean. Os Black Keys só começaram a ser falados a partir de 2004 quando gravaram Rubber Factory. Mas não se pense em digressões lucrativas: Dan Auerbach e Patrick Carney perdiam dinheiro em digressões europeias e gravavam para uma independente, a Fat Possum. Só quando se mudaram para a Nonesuch, ganharam visibilidade global ainda que num circuito restrito. Mais importante que tudo isso: as raízes blues garageiras já estavam presentes nas primeiras edições e os Black Keys escreveram a sua história de trás para a frente e à antiga como as suas canções. Com bons proveitos.

Thelibertines

8. The Libertines

Talvez nunca se venha a perceber se Pete Doherty é um génio compreendido. Que é genuíno, é, e quando os Libertines deram que falar, em 2002, já as drogas cantavam alto quanto as canções e o (mau) génio destruía a noção de grupo, sobretudo devido aos conflitos com Carl Barat. Os Libertines representavam a facção britânica de uma vaga sobretudo nova-iorquina e vestiam a camisola da selecção local com os The Vines ou os The Music, por exemplo. O primeiro álbum vivia mais da altura do bife do que propriamente da carne e, onze anos depois, resiste com dificuldade ao tempo o que não anula a importância da banda de Doherty e Barat. O sucessor Up The Bracket (produção Mick Jones) era melhor mas o fim era inevitável.

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9. Yeah Yeah Yeahs

Ainda pelas garagens nova-iorquinas, os Yeah Yeah Yeahs tinham algo de que apenas os White Stripes se podiam gabar: uma mulher cuja soberania sobre o microfone assegurava a ligação directa aos Blondie. Depois de abrirem concertos de Girls Against Boys na Europa e Jon Spencer Blues Explosion nos EUA, gravaram Fever To Tell, o álbum de estreia ideal para quem viria a gritar activamente até 2010, ano em que terminou a digressão de It’s Blitz. Estão de volta com Mosquito e uma noção exacta de tempo. Será o pragmatismo suficiente para alimentar a utopia de uma canção? 

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10. Franz Ferdinand

O álbum de estreia dos Franz Ferdinand é perfeito e só o atraso face a Is This It faz com que, por vezes, seja esquecido ou menos recordado. De onze canções tiram-se sete singles, o que faz desta uma colecção ímpar e justa para quem como Alex Kapranos agitava a cena local de Glasgow sem nunca ter encontrado um lugar ao sol. Um objectivo cumprido depois dos 30 e sempre com alguma distância para as passerelles que, por exemplo, os Strokes gostavam de pisar. Um ano depois, surgia o irmão mais novo de Franz Ferdinand mas o problema foi mesmo um terceiro álbum de indecisão. E não mais voltaram a gravar, tal o medo de desiludirem a camada arty que nunca os desprendeu.

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11. The Killers

Quando o refrão de Somebody Told Me invadiu o éter, ainda não se suspeitava que os Killers eram uma reacção a uma cena indie emergente e umbiguista. O inicial Hot Fuss foi mais importante do que bom e, à distância de nove anos, vale pelo poder de singles aglutinadores como o citado, Mr. Brightside ou Jenny Was a Friend of Mine. O resto é argamassa para colar um álbum que foi aceite pelas comparações com bandas incontestáveis como os New Order ou os Depeche Mode. Porque, de resto, os Killers nunca foram brilhantes apesar da piada que têm por assumirem uma divergência grandiosa com um tempo de economia aspiracional na cena indie. 

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12. Bloc Party

Os Bloc Party foram filhos tardios desta geração e talvez estejam mais próximos dos Arctic Monkeys do que dos Strokes. Silent Alarm, de 2005, é uma espécie de fronteira entre a primeira e a segunda metade da década mas a frescura com que olharam o pós-punk de bandas como os Gang of Four (também uma das grandes inspirações dos Franz Ferdinand) merece que sejam introduzidos nesta lista que revivia uma época que poucos conheceram sem ser através da televisão e VHS (o YouTube estava prestes a ser introduzido nas nossas vidas). Pena que seja o único álbum decente dos Bloc Party – a haver um pior de 2012 ele é Four. Depois do folclore sobre a saída ou não de Kele Okereke, o fim parece inevitável.

Aceitam-se reclamações de Kaiser Chiefs, The Music, The Vines, The Kills, The Hells, Radio 4, The Von Bondies, The Dirtbombs, Electric Six, Kings of Leon, Editors, The Kooks, The Datsuns, The D4 e, vá, The Rapture

Audiojornal do dia

Dia de grande agitação nos players com inúmeras canções, álbuns, vídeos e trailers a serem descarregadas na Internet para consumo imediato. Foi uma terça-feira com todos – manchetes, artigos de fundo, notícias do dia e rodapés – e para todos os géneros, em modo shuffle rápido e versátil.

Os Foals começam a campanha de lançamento do novo álbum Holy Fire (ed. 12 de Fevereiro) com Inhaler – título que podia ser uma declaração de intenções de Pete Doherty. Por agora, mais dúvidas que certezas: à exploração de território rock dançável juntam um refrão com riff explosivo à Rage Against The Machine. Para uma banda que sempre evidenciou frescura, é surpreendente soar a anos 90 mas pode ser uma leitura apressada. Agora, que vai ser êxito de redes sociais não há dúvidas.

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