Postais de Glastonbury

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Kanye West provou do próprio veneno mas as previsões confirmaram-se. Glastonbury teve um nome. A energia negativa de uma petição com mais de 150 mil assinantes foi canalizada para um espectáculo dominador e pujante. Um Kanye West no pico da auto-confiança apresentou-se como “a maior estrela rock viva” e conquistou um festival que, pelos vídeos disponíveis, cantou durante hora e meia como se de um jogo de futebol se tratasse.

Um comediante inglês fez de Kanye West e invadiu o palco antes de Black Skinhead. Cómico. No único momento musical dispensável, ressuscitou o hino gongórico Bohemian Rapsody dos Queen mas não se limitou um karaoke rejeitável pelos concursos. West não sabe cantar mas tem o dom da palavra e subverteu a letra atribuindo um novo sentido à canção dos Queen, extrapolável não só na tensão racial mas também na presença de um símbolo do hip hop num festival de rock.

Quando em 2008, Jay-Z foi o primeiro cabeça de cartaz de Glastonbury a não esgotar os bilhetes, West mostrou que a resistência do “público do rock” está ultrapassada. Os rappers ocuparam o primado das estrelas rock da segunda metade do Séc. XX e o derrube de fronteiras de género já não é só um discurso avançado. É uma realidade nítida e celebrada. Ao cuidado dos promotores nacionais.

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Pré-escuta #1

 

Markronsoncapa

Por aqui, as arrumações são feitas em horário de expediente e chegam antes do fim-de-semana. Quem não se lembra de se deslocar à melhor loja de música do bairro para ouvir um álbum a editar apenas na semana seguinte? No tempo das vacas gordas da indústria da música gravada, era prática comum e não exclusiva dos grandes retalhistas da época como a Valentim de Carvalho, a Strauss ou mais tarde a FNAC.

Hoje, o que era uma audição controlada pelo dono ou empregados das lojas motivadora de exércitos ansiosos à espera de ganhar a sua vez nos auscultadores é uma pré-escuta livre e privada desde que a Wi-Fi o permita. Hoje, esses tempos nem sequer permitem um confronto geracional. São só uma boa memória galhofeira de um período de dificuldade felizmente ultrapassado e retransformado à luz das ferramentas actuais.

Mark Ronson, uma das obsessões deste início de ano, é o destaque óbvio mas atenção ao alter-ego Percussions de Four Tet e ao criador de formas Ghost Wavves, o Kit do muito estimado por estas bandas Mike El Nite.

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Lado B #1

Markronson

A habitação da Mesa de Mistura anda em mudanças e depois de os Vídeos da Semana terem sido rebaptizados Clube de Vídeo, é a vez de as Remisturas da Semana sofrerem uma remodelação. Sejam então bem-vindos ao primeiro episódio do Lado B, uma homenagem a todas as pérolas guardadas na face oposta do single, intervencionadas por mão alheia e descobertas por coleccionadores em lojas da especialidade.

Este cenário já era. Hoje, e apesar da resistência honrosa de algumas lojas instaladas nas grandes metrópoles, os lados B são pistas de Soundcloud, as capas jpgs. e os expositores um gigantesco servidor com toda a música existente no espaço digital disponível para audição e compra imediata.

Mudam-se os tempos, mantém-se o prazer da descoberta. No Lado B inaugural, a melhor canção de princípio de ano que só por acidente não chegará intacta a Dezembro é transformada num dub à medida dos máxis dos anos 80 pela mão de Benji B. Fragmentos de Bruno Mars, pessoas a dançar na rua, metais, uma guitarra à Nile Rodgers, um baixo sincopado e eco. Muito eco.

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Na rua dos funkeiros com Mark Ronson

Markronson

Mark Ronson nunca tinha sido tão bondoso para si como para os outros. Rodeia-se, como sempre, de parceiros estratégicos, ou não fosse um esteta. Provavelmente, o melhor arranjador da Motown no Séc. XXI. Back To Black, a obra-prima de Amy Winehouse proporcionada pela visão sonora do produtor, era Nina Simone, Ella Fitzgerald, Gladys Knight, Diana Ross. Uptown Special é James Brown, Nile Rodgers e Prince. Funk analógico encapsulado para provocar filas de soul train.

Os convidados ajudam a tornar definitivo o que até aqui era apenas um rumor insistente: o talento de Ronson posto ao serviço da casa. A imortalidade ao nível de uma ficha técnica já fora conquistada a servir Amy Winehouse com a música certa (escolha de repertório e arranjos) no tempo certo para a voz perfeita mas nem o álbum interpretativo Version de 2007 nem Record Collection, três anos após, prolongaram esse estado de deslumbramento colectivo.

Desde 23 de Julho de 2011 que só o ouvimos falar sobre a última das iconoclastas. Aliás, a relação com músicos mortos não se esgotou na relação com a neo-diva da soul. Ronson recebeu e retalhou Lovely Way, um a capella integral e terminado de Michael Jackson, que acabou por não fazer parte do álbum póstumo Xscape do ano passado.

Uptown Special é uma laudatória aos mortos e um requiem pelos vivos. A harmónica de Stevie Wonder abre e começa um disco com o brilho do tempo do vinil, Mystikal imita James Brown no sketch imaculado de Feel Right, Bruno Mars bebe no sangue de Prince o Let’s Dance mais perfeito dos últimos anos, Keyone Starr traz o funk para o ambiente de Dâm-Funk; e Kevin Parker envia-nos numa lancha que pára no Santana de Black Magik Woman em Summer Breaking, nos Funkadelic de Maggot Brain em Daffodils e na solar Leaving Los Feliz. 

Parece que desta Ronson acertou com várias setas no alvo. Se James Brown é o padrinho da soul, em Uptown Special Mark Ronson declara-se afilhado.

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Regresso ao futuro: 30 álbuns internacionais aguardados em 2015

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Um ano com Kanye West, Kendrick Lamar e Drake tem tudo para ser mais quente que um 2014 pouco agitado mas antes das respostas, as perguntas. Que peso têm os álbuns na idade do efémero, além de agirem como ferramenta promocional e matéria-prima para alimentar o offline? Deste trio de duques, Drake tem uma palavra a dizer. A caminho está não um longa-duração mas uma mixtape, formato desde sempre adoptado pelos rappers para espalhar colaborações, que nos últimos anos tem ganho legitimidade e um peso institucional semelhante ao de um disco.

Além destes, palpitam na imaginação James Blake, Bob Dylan a preencher os poucos buracos que restam na carreira ao cantar Franl Sinatra, o regresso dos Tame Impala, PJ Harvey e o método de gravação olhos nos olhos com a assistência, e, quem sabe, Disclosure, Jamie xx e Radiohead. Panda Bear tem o primeiro álbum mediatizado do ano. Mark Ronson o grande single de final de 2014 a abrir a porta para aquele que pode ser a obra definitiva do cúmplice decisivo de Amy Winehouse.

De janeiro para o mundo, especulações, indícios e certezas sobre o que se vai passar ao longo dos próximos meses com a certeza de que o primeiro ano da década sem um disco de Kanye West foi morno. 2015 tem de ser melhor.

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Vídeos da Semana 46.14

Markronson

Os treinos ainda agora começaram e Mark Ronson já está na pole-position para 2015. O abrandar do ritmo de edições no final do ano coincide com as primeiras apostas para o próximo ano e o cúmplice decisivo de Amy Winehouse parece ter em mãos um álbum capaz de fazer a transição de Midas do som para compositor por direito próprio.

O já distante Here Comes The Fuzz (2003) passou a palavra às estrelas pop, Version (2007) encheu de plumas e lantejoulas canções para a classe média como Just, Oh My God, Stop MeToxic quando Ronson gozava de assento entre a elite, e dos três, Record Collection foi o que menos impressionou.

À escala da banda larga, cinco anos não é meia década. É uma eternidade e o regresso começa a ser ilustrado ao lado de uma estrela que só depois de 2010 ascendeu de escritor de canções a protagonista. Bruno Mars faz de James Brown nas ruas de Nova Iorque e não fosse o crescendo EDM a caminho do refrão, o single estaria perto da perfeição.

Uptown Special chega a 27 de Janeiro próximo ano mas a cortina já começou a ser descerrada não só com Uptown Funk mas também com o comprimido psicadélico Daffodils comparticipado por Kevin Parker dos Tame Impala e com a arejada Feel Right em que participa o rapper veterno Mystikal. Um neófito a viajar por águas passadas, um maduro a dizer “presente” e duas canções guiadas pelo renascimento do funk. James Brown está vivo em espírito.

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