Postais de Glastonbury
Kanye West provou do próprio veneno mas as previsões confirmaram-se. Glastonbury teve um nome. A energia negativa de uma petição com mais de 150 mil assinantes foi canalizada para um espectáculo dominador e pujante. Um Kanye West no pico da auto-confiança apresentou-se como “a maior estrela rock viva” e conquistou um festival que, pelos vídeos disponíveis, cantou durante hora e meia como se de um jogo de futebol se tratasse.
Um comediante inglês fez de Kanye West e invadiu o palco antes de Black Skinhead. Cómico. No único momento musical dispensável, ressuscitou o hino gongórico Bohemian Rapsody dos Queen mas não se limitou um karaoke rejeitável pelos concursos. West não sabe cantar mas tem o dom da palavra e subverteu a letra atribuindo um novo sentido à canção dos Queen, extrapolável não só na tensão racial mas também na presença de um símbolo do hip hop num festival de rock.
Quando em 2008, Jay-Z foi o primeiro cabeça de cartaz de Glastonbury a não esgotar os bilhetes, West mostrou que a resistência do “público do rock” está ultrapassada. Os rappers ocuparam o primado das estrelas rock da segunda metade do Séc. XX e o derrube de fronteiras de género já não é só um discurso avançado. É uma realidade nítida e celebrada. Ao cuidado dos promotores nacionais.






