Pasta da Reciclagem: NERD

NERD

A mitologia rock (sim, rock!) perdeu-se algures no tráfego da Internet? Os N.E.R.D. não. Conta a lenda que In Search Of começou por ser construído à base de samples e após uma tímida aproximação à imprensa, foi regravado. Só aí foi assumida a justaposição entre rock e hip-hop numa época em que a aproximação entre os dois mundos deixara de ser um sonho e passara a ser um pesadelo graças ao nu-metal, um dos mais irritantes movimentos da cultura pop de há muito para cá.

A banda formada por Pharrell Williams, Chad Hugo e pelo amigo Shay nasceu com os genes dos Neptunes cujas marcas na produção vinham ganhando atenção desde o final de século. O álbum Wanderland de Kelis fora uma prova definitiva e um ano depois arranca In Search Of. Primeiro com uma falsa partida e depois a todo o gás numa fase em que outros grandes nomes da Virginia eram centrais na música americana: Teddy Riley, Missy Elliott e Timbaland – sem perda de importância, só a rapper perderia protagonismo ao longo dos anos.

In Search Of saiu quando meio-mundo andava entretido a comparar novas bandas de rock revivalista com a discografia dos pais e outro meio-mundo a ronronar ao som do r&b que então invadia as pistas muito antes do vírus David Guetta. O contexto era favorável mas os NERD, como os Outkast, Kelis, Missy Elliott, Justin Timberlake, Beyoncé, Timbaland ou…Nelly foram decisivos para a construção de um quadro favorável a que a música negra desse tempo passasse a ser ouvida sem guetos nos tímpanos.

Não era a primeira vez que uma banda estreitava relações entre o corpo do hip-hop e o coração do rock mas os NERD eram seguramente diferentes dos Rage Against The Machine ou de canções avulsas dos Aerosmith com os Run DMC, dos Public Enemy com os Anthrax ou das aventuras na garagem dos Beastie Boys a brincar ao hardcore.

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Conta-me como foi há dez anos (antes do YouTube)

Franzferdinand2004

Poucas reedições sopram dez velas de vida porque a música é um alimento para alma para ser sorvido com calma e uma dezena de anos é uma digestão demasiado lenta que pode provocar congestão. Em 2004, a televisão estava cheia de anúncios da Alka Seltzer e ainda era o canal onde os vídeos eram consumidos. Dito de outra forma, ainda havia telediscos. O YouTube só seria fundado em Fevereiro de 2005 e a Internet ainda se encontrava na pré-história. O MySpace estava para nascer e o Hi5 era a única rede social. Não se socializava, só se engatava. O mais parecido com o Instagram era o Fotoloblog e os internautas confessionais expressavam-se no Live Journal. Alguém se lembra?

O mundo mudou muito nos últimos dez anos e é irónico perceber que de 1994 para 2004 passaram dez anos mas de então até hoje, parece um século. Excluindo o iPod – o primeiro motor de mudança na forma como a música é consumida – todas as grandes transformações vieram depois. Mas alguns dos nomes mais transformadores dos últimos anos estavam então a começar a mudar o mundo. Os Animal Collective começavam a ser notados, os LCD Soundsystem emergiam, Kanye West editava o primeiro álbum e M.I.A. estava para acontecer.

Em 2004, a cultura pop ainda celebrava o novo passado com bandas como Franz Ferdinand mas já ensaiava um futuro em shuffle que tanto abrigava os Arcade Fire como os The Streets. Para cá de Olivença, os Da Weasel eram o fenómeno do ano, os Dead Combo abriam as comportas lisboetas ao mundo e os Humanos davam a António Variações e ao povo o melhor presente que a pop podia oferecer.

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