
Há três formas de medir o revivalismo de uma década: o volume de reedições, a reciclagem do som da época e a visita ao guarda-roupa da época.
Moda e música sempre caminharam de braço dado na passerelle da cultura pop e se olharmos a colecções, montras e outfits verificamos que as camisas de flanela à lenhador, os casacos de lã, as botifarras, a ganga rasgada, o cabedal e as ceroulas voltaram a ser tendência. A grande diferença é que, tal na música, a relação está apenas no olho. A década de 90 e, particularmente os primeiros anos, reagia aos anos precedentes, tal como o punk tinha reagido ao rock sinfónico. Pelo menos uma parte dela, aquela que olhava para os anos 80 como a década do plástico e que, por isso, era catalogada como reaccionária.
Era a geração de Seattle, precedida pela vaga de bandas da Sub Pop, editora fundada em 1986, que viria a desempenhar papel decisivo na cena local e, por arrasto, em todo o rock americano então dito independente, ao assinar bandas como Mudhoney, Butthole Surfers, Dinosaur Jr. e Nirvana. O lado americano da ponte já havia sido explorado mas este ano há uma banda que recupera sem apelo nem agravo esse som herdeiro do punk embora, lá está, sem compromissos exteriores à própria música.
Já havia Wavves, é verdade, mas os Metz são quem inequivocamente importa os anos 90, tal como os Strokes faziam com os Television, os Black Rebel Motorcycle Club com os Jesus & Mary Chain, os LCD Soundsystem com os Talking Heads e os Interpol com os Chameleons.
A geração de 80 tem dificuldade em aceitar este facto porque parte dos anos 90 cortou com os anos 80. Mas também houve quem caminhasse por pistas entretanto sugeridas. A entrada em cena da tecnologia bifurcava-se: de um lado, os produtores de techno e house como Frankie Knuckles, Derrick May e Juan Atkins influenciavam o som que se viria a ouvir no virar de década. Dos Soul II Soul aos Inner City (onde militava um outro nome essencial, Kevin Saunderson), os anos 80 terminavam cheios de balanço dançante e sugeriam o que viria a ser o som de vultos como Madonna ou George Michael.
Havia também um meio-termo, entre o rock e a música de dança, protagonizado por nomes como Happy Mondays ou Stone Roses. Ambos regressaram em 2012, embora no primeiro caso não se tratasse de um episódio virgem. No entanto, o simbolismo do retorno aos palcos – rumores de novos álbuns não passam, por agora, disso mesmo – está no apetite que uma geração então adolescente tem pelas raízes da formação da personalidade.
O que resta da indústria da música gravada olha para estes regressos como uma oportunidade de ouro de revender álbuns multi-platinados a uma geração que ainda tem algum poder de compra e, grosso modo, já não procura a descoberta. Em 2012, houve reedições importantes do primeiro álbum dos Rage Against The Machine, da curta discografia dos My Bloody Valentine, de Blue Lines dos Massive Attack, da obra integral dos Blur, de Mellon Collie & The Infinite Sadness dos Smashing Pumpkins e do mais tardio Fat Of The Land dos Prodigy.
De anos mais recentes já vinham, entre outros, Nevermind dos Nirvana, Ten e álbuns posteriores até No Code dos Pearl Jam, Achtung Baby e Zooropa dos U2 e Screamadelica dos Primal Scream.
Aos palcos voltaram Blur, Afgan Whigs, No Doubt, Garbage e Soundgarden – estes três com novos álbuns recebidos com indiferença. Com a dificuldade que as novas bandas encontram para se impor num mercado inundado de música, vídeos e virais de duração minúscula, os heróis dos anos 90 são tiros seguros para a indústria do espectáculo que encontra neles cabeças-de-cartaz confortáveis que não dependem do flavour of the month. As Breeders são as senhoras que se seguem numa relação separada por vinte anos que a curto prazo promete apanhar na corrente Bjork, Beck, Portishead e Tricky, ou seja os símbolos da época.
O mesmo se passou em Portugal com o regresso aclamado dos Ornatos Violeta e a nostalgia forçada dos Resistência – apesar da lotação esgotada do Campo Pequeno. Uma reunião que se irá prolongar a 2013, ano que promete ser penoso para os músicos portugueses ao nível dos palcos.
É na produção de dança que o legado de 90 é mais evidente. O novo deep house de Maya Jane Coles, Jamie Jones, Maceo Plex ou de Dyed Soundorom, que ainda há poucos dias passou pelo Lux, é todo ele uma evocação da época com tempos médios, vozes subliminares e um grau de profundidade (de deep) relacionado com o consumo de drogas.
Outros como A.N.D.Y., Tensnake ou Sneaky Sound System recuperam teclados e refrões do house-pop-canção nem sempre respeitado desse período. Esse é um outro efeito provocado pela distância; a “separação de lixo” torna-se menos evidente e aquilo que é tralha de garagem para uns pode ser valioso para outros. Podem ler um bom artigo com áudio a acompanhar aqui.
Convém não esquecer que a nova vaga do R&B se inspira em nomes então pouco credíveis como Mario, Babyface, Brandy & Monica, Boyz II Men, o inevitável R. Kelly e o omnipresente Michael Jackson. The Weeknd e Miguel são aqueles que de forma mais evidente citam os mestres sem os complexos de quem viveu esse tempo com a bandeira americana nos pés.
Para o fim a remistura do ano:
Contexto #1: O ano em que o rap saiu do armário