Conta-me como foi há vinte anos: reedições pedidas pela memória

Pedroabrunhosaviagens

Os números são o que se quer fazer deles e os redondos ajudam no cálculo de efeitos retroactivos. Isto é, as reedições têm quase sempre matemática associada com dez ou mais anos de contagem decrescente.

O baralhar e volta a dar é uma forma de a indústria obter retorno com álbuns que geralmente não só estão pagos como geraram lucros elevados mas é injusto olhar para estas operações de modo puramente mercantil. Muitas são também um “conta-me como foi” e um “imagina como seria agora”, além de acrescentarem material que por razões de espaço ou interesse acabou fora das edições originais.

Reedições como as de Screamadelica dos Primal ScreamTen dos Pearl Jam, NevermindIn Utero dos Nirvana ou Velvet Underground & Nico ajudam a rememorar a história, a contextualizar os heróis de ontem na selva de hoje e, na melhor das hipóteses, a importar um legado decisivo para as novas gerações.

Regressamos a 1994 porque o arquivo dos anos 80 está devidamente explorada e os 90 estão em pleno processo de romantização. Um tempo em que o CD substituiu definitivamente o vinil, o grunge morreu a 5 de Abril e o punk californiano contribuiu decisivamente para a explosão dos desportos radicais com a cumplicidade de programas como Portugal RadicalSem Limites. Em Portugal, Pedro Abrunhosa e Rapública abriram a porta à música negra, ao rap, à cor e ao groove. 

Com Grace de Jeff Buckley, Let Love In de Nick Cave & The Bad Seeds, Music For The Jilted Generation dos Prodigy, The Return of the Space Cowboy dos Jamiroquai, Parklife dos Blur, Dog Man Star dos Suede, Crooked Rain, Crooked Rain dos Pavement, The Downward Spiral dos Nine Inch Nails, Ill Comunication dos Beastie Boys e Illmatic de Nas entre as pilhas de reedições recentes, estes são alguns dos álbuns que ainda não passaram pelo crivo da memória discográfica.

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Álbuns da Semana #30

Miloshcapa

Estamos a dois dias de faltar um mês de Natal e os primeiros balanços começam a chegar via Internet. Uma das tendências do ano musical foi a inclusão do silêncio enquanto parte da canção. Tem lógica se pensarmos que o dia-a-dia de um cidadão info-incluído é um zapping permanente que pede decisões constantes. Devo ou não abrir o link é a pergunta repetida até ao infinito para quem tem as redes sociais sempre abertas no computador, telemóvel ou tablet.

A música pode assumir vários papéis. Pode estar à frente do seu tempo como David Bowie no auge do culto das personagens ou acompanhá-lo como Madonna. Mike Milosh, o canadiano cujo timbre pôs muita gente a perguntar se os Rhye tinham uma vocalista, é uma das vozes do ano justamente por ter ganho projecção sem precisar de falar alto.

Este novo álbum a solo vem precedido por uma discografia extensa que só agora tem o devido relevo devido à importância adquirida por Last Days. Jet Lag é natalício mas só de espírito no sentido em que a intenção da quadra não é o comércio mas antes a reflexão. E se há canções que nos fazem parar para pensar são estas.

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Pasta da Reciclagem: Soundgarden

Soundgarden

Que foi o grunge? Uma palavra que serviu para mascarar uma outra. Mais simples, mais tradicional, mais convencional. Rock, apenas e só. E das bandas de rock de Seattle, os Soundgarden foram os melhores. Os mais personalizados aprendizes dos Led Zeppelin. Os góticos de uma cena em que os Nirvana eram a banda europeizada com refrões pop,  os Pearl Jam os meninos de coro (razão pela qual sobreviveram) e os Alice In Chains os metaleiros. Os Metallica de Seattle.

Houve outras bandas – Jesus Lizard, Mudhoney, L7 – mas estes eram os quatro grandes. E se os Nirvana foram imortalizados pela sua efemeridade, os Soundgarden começaram nos anos 80 quando o punk dos Black Flag deixava de fazer faísca e nascia um novo rock impetuoso e de sangue quente liderado pelos Jane’s Addiction (Tom Morello dos Rage Against The Machine viria a considerá-los mais importantes que os Nirvana).

Esse era o fogo que lavrava em Los Angeles com a banda do “louco” Perry Farrell e uns Red Hot Chili Peppers em etapa de transição para os anos 90. Em Seattle, o clima era outro. Mais chuvoso e sombrio.

Os Nirvana foram maiores que a vida a partir de Nevermind enquanto os Soundgarden se alimentaram sobretudo de singles. Como os Bauhaus dez anos antes. Louder Than Love (1988) e Badmotorfinger (1990) são bons álbuns mas só Superunknown merece o estatuto de clássico. E o derradeiro Down On The Upside (1996) é o epitáfio merecido para uma banda que sempre se conservou o seu carisma. Até regressar para capitalizar o passado. Sem êxito.

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Contexto #2: o regresso dos anos 90

Há três formas de medir o revivalismo de uma década: o volume de reedições, a reciclagem do som da época e a visita ao guarda-roupa da época.

Moda e música sempre caminharam de braço dado na passerelle da cultura pop e se olharmos a colecções, montras e outfits verificamos que as camisas de flanela à lenhador, os casacos de lã, as botifarras, a ganga rasgada, o cabedal e as ceroulas voltaram a ser tendência. A grande diferença é que, tal na música, a relação está apenas no olho. A década de 90 e, particularmente os primeiros anos, reagia aos anos precedentes, tal como o punk tinha reagido ao rock sinfónico. Pelo menos uma parte dela, aquela que olhava para os anos 80 como a década do plástico e que, por isso, era catalogada como reaccionária.

Era a geração de Seattle, precedida pela vaga de bandas da Sub Pop, editora fundada em 1986, que viria a desempenhar papel decisivo na cena local e, por arrasto, em todo o rock americano então dito independente, ao assinar bandas como Mudhoney, Butthole Surfers, Dinosaur Jr. e Nirvana. O lado americano da ponte já havia sido explorado mas este ano há uma banda que recupera sem apelo nem agravo esse som herdeiro do punk embora, lá está, sem compromissos exteriores à própria música.

Já havia Wavves, é verdade, mas os Metz são quem inequivocamente importa os anos 90, tal como os Strokes faziam com os Television, os Black Rebel Motorcycle Club com os Jesus & Mary Chain, os LCD Soundsystem com os Talking Heads e os Interpol com os Chameleons.

A geração de 80 tem dificuldade em aceitar este facto porque parte dos anos 90 cortou com os anos 80. Mas também houve quem caminhasse por pistas entretanto sugeridas. A entrada em cena da tecnologia bifurcava-se: de um lado, os produtores de techno e house como Frankie Knuckles, Derrick May e Juan Atkins influenciavam o som que se viria a ouvir no virar de década. Dos Soul II Soul aos Inner City (onde militava um outro nome essencial, Kevin Saunderson), os anos 80 terminavam cheios de balanço dançante e sugeriam o que viria a ser o som de vultos como Madonna ou George Michael.

Havia também um meio-termo, entre o rock e a música de dança, protagonizado por nomes como Happy Mondays ou Stone Roses. Ambos regressaram em 2012, embora no primeiro caso não se tratasse de um episódio virgem. No entanto, o simbolismo do retorno aos palcos – rumores de novos álbuns não passam, por agora, disso mesmo – está no apetite que uma geração então adolescente tem pelas raízes da formação da personalidade.

O que resta da indústria da música gravada olha para estes regressos como uma oportunidade de ouro de revender álbuns multi-platinados a uma geração que ainda tem algum poder de compra e, grosso modo, já não procura a descoberta. Em 2012, houve reedições importantes do primeiro álbum dos Rage Against The Machine, da curta discografia dos My Bloody Valentine, de Blue Lines dos Massive Attack, da obra integral dos Blur, de Mellon Collie & The Infinite Sadness dos Smashing Pumpkins e do mais tardio Fat Of The Land dos Prodigy.

De anos mais recentes já vinham, entre outros, Nevermind dos Nirvana, Ten e álbuns posteriores até No Code dos Pearl Jam, Achtung Baby Zooropa dos U2 e Screamadelica dos Primal Scream.

Aos palcos voltaram Blur, Afgan Whigs, No Doubt, Garbage e Soundgarden – estes três com novos álbuns recebidos com indiferença. Com a dificuldade que as novas bandas encontram para se impor num mercado inundado de música, vídeos e virais de duração minúscula, os heróis dos anos 90 são tiros seguros para a indústria do espectáculo que encontra neles cabeças-de-cartaz confortáveis que não dependem do flavour of the month. As Breeders são as senhoras que se seguem numa relação separada por vinte anos que a curto prazo promete apanhar na corrente Bjork, Beck, Portishead e Tricky, ou seja os símbolos da época.

O mesmo se passou em Portugal com o regresso aclamado dos Ornatos Violeta e a nostalgia forçada dos Resistência – apesar da lotação esgotada do Campo Pequeno. Uma reunião que se irá prolongar a 2013, ano que promete ser penoso para os músicos portugueses ao nível dos palcos.

É na produção de dança que o legado de 90 é mais evidente. O novo deep house de Maya Jane Coles, Jamie Jones, Maceo Plex ou de Dyed Soundorom, que ainda há poucos dias passou pelo Lux, é todo ele uma evocação da época com tempos médios, vozes subliminares e um grau de profundidade (de deep) relacionado com o consumo de drogas.

Outros como A.N.D.Y.,  Tensnake ou Sneaky Sound System recuperam teclados e refrões do house-pop-canção nem sempre respeitado desse período. Esse é um outro efeito provocado pela distância; a “separação de lixo” torna-se menos evidente e aquilo que é tralha de garagem para uns pode ser valioso para outros. Podem ler um bom artigo com áudio a acompanhar aqui.

Convém não esquecer que a nova vaga do R&B se inspira em nomes então pouco credíveis como Mario, Babyface, Brandy & Monica, Boyz II Men, o inevitável R. Kelly e o omnipresente Michael Jackson. The Weeknd e Miguel são aqueles que de forma mais evidente citam os mestres sem os complexos de quem viveu esse tempo com a bandeira americana nos pés.

Para o fim a remistura do ano:

Contexto #1: O ano em que o rap saiu do armário

A (re)volta dos anos 90

retromania de Simon Reynolds chegou à década de 90. A adição ao passado é cíclica e, pelo menos, até às redes sociais e ao YouTube tem um intervalo de vinte anos, compreendido entre a adolescência – os anos “dourados” – e a estabilidade financeira – os anos dos cartões dourados.

Num plano de vida Médis, seria a vida perfeita mas as regras alteraram-se. É provável que a Internet, o termo precoce da adolescência e o acumular de experiências superficiais condicione a relação com o tempo mas, para a minha geração, camisas de flanela, casacos de malha, calças rasgadas, botas Dr. Martens (ou Dr. Martinez na candonga), ténis All-Star com as estrelas americanas, iconografia Kurt Cobain e T-Shirts Beavis & Butthead são marcas visuais de um tempo.

Cardigan H&M

T-Shirt Red Hot Chili Peppers Springfield

T-Shirt Nirvana Pull & Bear

Moda e música são dos indicadores mais fiáveis para se avaliar tendências. Nas novas colecções Pull & Bear e Springfield ambas surgem de braço dado, tal como há temporadas atrás havia colecções com bandas como Ramones, Dead Kennedys, Smiths ou Joy Division. Esses eram os nomes que influenciavam o rock de há dez anos, a última leva colectiva em que as guitarras se proponham a mudar o mundo. Os Strokes citavam os Television, os Interpol decalcavam Joy Division e Chameleons, os Black Rebel Motorcycle Club mergulhavam nas águas dos Jesus & Mary Chain e até os LCD Soundsystem recuperavam o punk funk  de Gang Four.

Quase uma década depois, o rock está presente de outra forma. Os Soundgarden estão de volta com um álbum medíocre, King Animal, que procura captar a raiva de uma época de embriaguez e alienação de valores e os Rage Against The Machine reeditam o histórico primeiro álbum.

Como a produção rock actual é curta e o olhar anacronismo foca sobretudo a década de 70 – tal como, ironicamente, Nirvana, Pearl Jam e Soundgarden faziam no seu tempo – as reedições são a tábua de salvação de uma indústria que tenta com que os fãs voltem a adquirir álbuns que compraram no início da era do CD. Ten, dos Pearl Jam, marcou o início da campanha em 2009. Nevermind, dos Nirvana, sucedeu-lhe enquanto capítulo revisionista.

Não é só ao rock que a retromania bate à porta e se o início da década será sempre lembrado pelas bandas de Seattle, na Europa, a electrónica cruzava-se com a música de dança e os Primal Scream inscreviam o seu nome na história. Screamadelica, um dos marcos de 1991, foi, também ele reeditado.

Do mesmo ano e tão ou ainda mais icónico, Blue Lines, dos Massive Attack ganha também ele uma reedição com som remasterizado que tem sobretudo um valor simbólico e visa, também, preencher o vazio editorial de 3D e Daddy G.

Na produção electrónica de dança, tanto há ecos da club house pop da época como do tecno mais duro. Rihanna e Chris Brown recordam Crystal Waters numa das canções do ano, Nobody’s Business. 

Em águas mais profundas, Tensnake e A.N.D.Y. cortam no açúcar e conservam alguma da acidez própria das pistas mais escuras.

O mergulho não fica completo sem Julio Bashmore e John Talabot, herdeiros de um acid house caloroso embora nem sempre sorridente.

Finalmente, toda a nova cena house é evocativa da produção época, com linhas vocais bem definidas e instrumentais que vagueiam entre o deep house e o house, num meio termo hedonista e falso lento.

Os anos 90 voltaram e só há razões para temer se o futuro for ignorado. Já está tudo inventado, é só uma questão de refazer de novo.

Audiojornal do dia

Dia de grande agitação nos players com inúmeras canções, álbuns, vídeos e trailers a serem descarregadas na Internet para consumo imediato. Foi uma terça-feira com todos – manchetes, artigos de fundo, notícias do dia e rodapés – e para todos os géneros, em modo shuffle rápido e versátil.

Os Foals começam a campanha de lançamento do novo álbum Holy Fire (ed. 12 de Fevereiro) com Inhaler – título que podia ser uma declaração de intenções de Pete Doherty. Por agora, mais dúvidas que certezas: à exploração de território rock dançável juntam um refrão com riff explosivo à Rage Against The Machine. Para uma banda que sempre evidenciou frescura, é surpreendente soar a anos 90 mas pode ser uma leitura apressada. Agora, que vai ser êxito de redes sociais não há dúvidas.

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